É impressionante olhar para as fotografias de mulheres da nossa idade feitas há 50 anos. Em geral, elas parecem muito mais velhas do que nós hoje: não apenas na aparência, mas na maneira como se posicionavam. Parte importante dessa mudança se explica por um dado objetivo: o aumento na longevidade. Nas últimas cinco décadas, as mulheres brasileiras ganharam cerca de 19 a 20 anos a mais na expectativa de vida.
Mas o que a longevidade tem a ver com a forma como as mulheres atravessam hoje a maturidade? A resposta está menos no corpo e mais na maneira como ousamos imaginar essa fase. De maneira equivocada, encaramos o tempo ganho na expectativa de vida como uma simples extensão da velhice, associada a limitações físicas, retração social e redução de possibilidades. Na verdade, os anos adicionais não foram conquistados no final da vida, como se estivéssemos apenas prolongando o período de declínio. Eles foram ganhos, sobretudo, na metade dela – na maturidade.
A psicóloga e pesquisadora Laura L. Carstensen utiliza uma metáfora esclarecedora para falar sobre isso. Segundo ela, o aumento da longevidade não significa apenas acrescentar anos frágeis no fim da vida, como se fosse um “puxadinho no fundo da casa”. Do ponto de vista demográfico, o que ocorreu foi que ganhamos anos na meia-idade, ampliando o período de vida ativa, produtiva e consciente – como se uma nova sala tivesse sido construída no centro da casa.
Isso torna quase incomparável a nossa experiência com a das mulheres de 50 anos atrás. Para elas, entre o fim da juventude e a entrada na velhice havia um intervalo curto que, assim como o restante da vida, era destinado prioritariamente ao cuidado dos outros. Compreender essa diferença amplia as possibilidades sobre o que fazer com esses anos extras que ganhamos.
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Ao mesmo tempo, esse ganho nos confronta com um vazio: a quase total ausência de referências. Não temos modelos consolidados de como experienciar essa nova meia-idade. Estamos vivendo algo relativamente novo na história das mulheres – e isso produz tanto liberdade quanto desorientação.
Esse é o desafio das mulheres que hoje atravessam a maturidade: estamos desbravando um território onde, até pouco tempo, tudo era mato. Não se trata apenas de “parecer mais jovens”. Diante da tarefa de criar a nova meia-idade, a aparência se torna um aspecto secundário. O que está em jogo é a oportunidade (e o ônus) de construir e decorar, do jeito que quisermos, essa nova sala no meio da vida.
E o fazemos sem herdar móveis, plantas ou instruções de uso. Com mais tempo e possibilidades que nossas antepassadas, cabe a nós criar novas referências – e esse é um dos motivos pelos quais a maturidade contemporânea parece tão desconcertante. Habitar esse espaço enquanto o modelamos para que seja confortável (mas não demais) é um de nossos grandes trabalhos como mulheres maduras.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.