Adriana Haas

A idade não é só um número

Adriana Haas reflete sobre como coragem, autoconsciência e novos começos transformam o ato de envelhecer

Com ou sem holofotes, ninguém envelhece da mesma forma
Com ou sem holofotes, ninguém envelhece da mesma forma Foto : Freepik / CP

Uma agência de publicidade dos Estados Unidos lançou, na semana passada, a campanha “Age is not just a number” (A idade não é só um número). Ela conta com um vídeo em que reconhecidas personalidades falam suas idades e o que aprenderam graças a elas: reinvenção, aprender a dizer “não”, autoconfiança, resiliência, sabedoria, coragem. A mensagem que encerra as falas é “A idade é o que me dá força”.

Os participantes incluem o ator e cineasta Ed Burns, a apresentadora Tamron Hall, a modelo Paulina Porizkova, o escritor e empresário Chip Conley, entre outros que são mais conhecidos lá do que aqui, mas que estão redefinindo, à sua maneira, o que significa envelhecer de forma ousada. Ainda que não os conheça, o simples fato de aparecerem no vídeo levará você a intuir que são pessoas que possuem dinheiro e notoriedade, o que facilitaria a tarefa de envelhecer com graça.

Eu concordo que é diferente quando não se tem uma equipe ou público aplaudindo, mas o ponto onde quero chegar é outro: com ou sem holofotes, ninguém envelhece da mesma forma – mas é possível, para qualquer um, descobrir formas autênticas e criativas de encarar o passar dos anos.

A diferença mais evidente são os “envelheceres” de homens e mulheres. E não me refiro apenas ao clássico “homens grisalhos ficam charmosos, mulheres grisalhas ficam desleixadas”, mas às diferentes formas com que somos educados e suas consequências. Vou destacar apenas uma entre essas diferenças: a coragem.

Se você parar para observar meninos, meninas e seus cuidadores em um parquinho, poderá testemunhar como os meninos são estimulados a enfrentar seus medos ainda que corram riscos (“Vai lá, você consegue!”), enquanto as meninas são desencorajadas para que mantenham íntegra sua aparência (“Cuidado, você vai cair!”). Eles crescem incentivados à autonomia, enquanto elas se tornarão mulheres que colocam seus desejos em segundo plano.

Isso causa impactos diferentes quando nos percebemos envelhecendo. Além das cobranças sociais para que não aparentemos a idade que temos, nos deparamos com autocobranças por termos colocado nossas necessidades e prioridades à margem de nossas vidas. Isso pode gerar ressentimento e tentativas desesperadas de parar o tempo – mas também acender o fogo da ousadia numa fase em que tudo muda. Filhos saindo de casa, transições profissionais, relacionamentos que terminam ou amadurecem, flutuações hormonais, entre outros fatores, são capazes de ocasionar verdadeiras revoluções particulares – que podemos, ao nos reencontrarmos com a coragem, transformar em força de movimento.

Veja Também

A idade é apenas um número se olharmos com desgosto para as mudanças inevitáveis que a acompanham, mas pode ser muito mais que um número quando nos voltamos às possibilidades de florescimento que oportuniza. Para quem optar pela segunda alternativa, buscar referências inspiradoras como as da campanha é importante, mas há outras, muitas e muito mais próximas, em cujas mãos podemos até segurar para descobrir as forças únicas e intransferíveis que a idade pode oferecer.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.