Adriana Haas

A magia que o tempo revela

Adriana Haas reflete sobre os sentidos que só o tempo é capaz de revelar, em despedida sensível de 2025 e convite a viver 2026 com mais encantamento

A maturidade aparece como força tranquila e olhar que já aprendeu a enxergar sentido até nos silêncios
A maturidade aparece como força tranquila e olhar que já aprendeu a enxergar sentido até nos silêncios Foto : Freepik / Divulgação / CP

Posso apostar que você também teve seus perrengues em 2025, talvez mais do que em anos anteriores. À medida que nossas narrativas pessoais avançam no tempo, novos capítulos se acumulam e outras histórias se entrecruzam, tornando tudo mais complexo do que há 30 anos. É natural, portanto, que a gente olhe para trás e pense que a vida era mais simples, como uma linha reta.
Mas quando chegamos à maturidade, a forma como enxergamos o passado muda. Podemos observar que as histórias não apenas sucedem umas às outras – elas misteriosamente se alinham. Ao revisitar o que já vivemos, fica claro que a vida segue uma lógica própria, alheia ao que planejamos – e que não é exagero chamar de magia. No último dia do ano, quero lhe oferecer uma evidência.
No final de 2024, viajei aos Estados Unidos para participar de um workshop com a escritora Liz Gilbert na Modern Elder Academy, uma espécie de “escola de envelhecimento". Éramos um grupo pequeno e, por diversas vezes, Liz enalteceu minha coragem por ser a única estrangeira participando de uma imersão profunda longe do meu país, da minha cultura e do meu idioma. Mas quando contou que havia raspado os cabelos apenas para retirá-los do centro da vida, como um ato de soberania para destinar sua energia ao que realmente importa, pensei: “uau, corajosa é ela!”.

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E foi enquanto estava lá que recebi o convite para escrever esta coluna semanal sobre maturidade feminina. Contei a Liz em nosso último café da manhã, quando ela se sentou ao meu lado, e comemoramos juntas. Ao se despedir, ela beijou minha cabeça e repetiu que eu era muito corajosa. Naquele momento, tudo o que eu conseguia ver era o que estava no presente: um workshop, um elogio generoso, um convite profissional. Só mais tarde entendi que alguns acontecimentos precisam de tempo para revelar seu sentido.
Cinco meses depois, usei minha coragem para raspar, da cabeça beijada por Liz, os fios de cabelo destinados a cair durante a quimioterapia para tratar um linfoma.

Fiquei careca por outros cinco meses e, em nenhum momento, senti vontade de me esconder. Era a minha soberania. Quando meus fios voltaram a crescer, o apego aos cabelos longos havia ficado para trás junto com o câncer. Descobri a praticidade e a ousadia de tê-los em poucos centímetros e decidi ficar assim. Encerro o ano de cabelos quase raspados e finalizando a leitura do mais recente livro de Liz, lançado no mês passado, no qual ela narra os últimos meses da companheira Rayya Elias, que morreu de câncer em 2018. E contando esta história em minha coluna semanal.
Hoje, ao olhar para essa parte da minha narrativa, consigo enxergar a circularidade da vida, que foi juntando acontecimentos e encontros até me oferecer uma história significativa para contar sobre um capítulo tão duro. Não foi por acaso que, entre todos os livros da Liz, escolhi justamente “Grande Magia” para que ela autografasse. Talvez meu inconsciente tenha achado apropriado para um workshop chamado “Awakening Magic” (Magia do Despertar). Meu cérebro racional nem tinha percebido, mas minha intuição já me orientava a resgatar o encantamento que estava ofuscado por uma rotina planejada demais. Descobri que ele não está apenas na forma como a vida organiza as coisas, mas também no jeito como escolhemos interpretá-las.
Lhe desejo um feliz – e mágico – 2026.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.