A amizade feminina impacta nossa qualidade de vida e até a longevidade – ou seja, quando mantemos laços verdadeiros com outras mulheres, vivemos mais e melhor. Isso é comprovado, mas nem precisaria: qualquer encontro entre amigas que vá além da superficialidade é prova concreta de que se trata de um laço que pode, ao mesmo tempo, fortalecer nossas raízes e nos impulsionar a voar.
Então por que será que, diante de evidências científicas e cotidianas, a gente segue mantendo a maior parte de nossas amizades na zona da “baixa manutenção”?
É ali que vão parar os grupos de mensagens silenciosos, que eventualmente ressurgem no topo da lista quando alguém compartilha um link de rede social – respondido apenas com reações rápidas, emojis ou figurinhas. É ali também que o aniversário se transforma no principal (e às vezes no único) ritual de contato, reduzido a mensagens enviadas mais por convenção do que por presença real.
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Há ainda as amizades mantidas no “modo espectadora”: sabemos o que acontece na vida da amiga apenas porque acompanhamos stories. Outras permanecem na promessa vaga – “precisamos marcar”, “qualquer dia conversamos com calma” – repetida sem ultrapassar a fronteira da agenda. São laços em que o cuidado acaba tão diluído que ninguém se sente à vontade para dizer “não estou bem”.
Chamamos de “baixa manutenção” aquilo que, na prática, exige pouco de nós – mas também entrega pouco em troca. Não se trata de amizades falsas, mas de vínculos reais, atravessados por história e afeto, que acabaram empobrecidos pelo excesso de mediação e pela lógica de uma vida permanentemente sobrecarregada. Na maturidade, muitas amizades acabam empurradas para essa zona não por desinteresse, mas porque consideramos as outras prioridades mais merecedoras de nosso tempo.
No entanto, é justamente na maturidade que a amizade entre mulheres se torna mais decisiva. Nessa etapa, muitos dos vínculos que antes organizavam a vida (como a criação dos filhos, a relação conjugal e o trabalho) mudam de forma ou perdem centralidade, deixando lacunas. E é também quando certas experiências, como o envelhecimento do corpo, as revisões de identidade e a consciência sobre a finitude, pedem uma escuta que dispense explicações longas. Entre mulheres que atravessam processos semelhantes, há menos necessidade de tradução e mais espaço para o reconhecimento.
Na maturidade, a amizade tende a se deslocar da comparação para a presença; deixa de exigir performance e passa a sustentar redescobertas – tornando-se, assim, um espaço em que é possível pensar a vida em voz alta. Diferentemente de outros laços, a amizade da maturidade não envolve obrigação, mas escolha. E escolher sair da zona de baixa manutenção significa reconhecer que alguns vínculos precisam de tempo. Não para sobrecarregar as agendas, mas para abrir nelas espaços de respiro – tornando a vida melhor e, quem sabe, mais longa.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
