Adriana Haas

A maturidade oferece outros horizontes

Adriana Haas reflete sobre como mudar o ponto de vista pode deslocar limites, ampliar possibilidades e revelar novos horizontes pessoais

O horizonte não é fixo, mas se desloca conforme o lugar de onde o observamos
O horizonte não é fixo, mas se desloca conforme o lugar de onde o observamos Foto : Freepik / Dvulgação / CP

É quase sempre durante as férias que nos permitimos olhar para o horizonte, a linha distante que sabemos não poder alcançar. Durante o resto do ano, nosso campo de visão se restringe ao que está próximo, aquilo em que somos capazes de atuar – e, convenhamos, há períodos em que não enxergamos nem o que está a um palmo do nosso nariz. É tanta coisa para resolver no entorno que dar conta delas já parece de bom tamanho.
Se você estiver de férias (ou mesmo que não esteja), convido-a a parar por um minuto para olhar o horizonte de outras maneiras. Perceba que, como está sempre à altura dos nossos olhos, ele muda conforme nós mudamos de posição. Se estamos sentadas, o horizonte desce; se nos levantamos, ele sobe com a gente. Ou seja, o horizonte não é fixo, mas se desloca conforme o lugar de onde o observamos.
Assim também acontece em relação aos nossos horizontes pessoais. Quando a gente chega na maturidade, é muito comum olhar para a frente e enxergar um cenário aparentemente definido e rígido. Entretanto, ao alterarmos o nosso ponto de vista, esse horizonte também se movimenta – afinal, o ponto de vista é apenas a vista a partir de um ponto, sempre passível de mudança.
Às vezes, insistimos nos mesmos ângulos de visão porque estamos curvadas pelo cansaço, pelo medo, pelas renúncias e pelas escolhas que não tivemos coragem de fazer. Em outros momentos, porque seguimos de olhos baixos, agindo no automático e repetindo lealdades antigas que já não nos servem. O horizonte, visto daí, encurta. A vida empobrece.

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Entretanto, uma pequena alteração no lugar de onde se enxerga pode deslocar nosso horizonte sem que as circunstâncias externas (que não controlamos) precisem mudar. Talvez não seja tão simples quanto sentar-se ou levantar-se, mas com frequência também não é tão complicado quanto imaginávamos. E a maturidade, etapa em que já cumprimos muitos dos papéis sociais adotados na juventude (o da boa mãe, da profissional, da esposa, etc.), parece ser o momento em que a própria vida passa a pedir que a observemos a partir de outros enquadramentos, capazes de revelar novos potenciais.
Fazer essa mudança, no entanto, exige uma pausa – e nem sempre as férias são a melhor oportunidade para ela. Esse intervalo precisa nos oferecer a chance de olhar para dentro, algo que não é possível quando apenas “transferimos” as demandas, problemas e humores para outro lugar. É uma parada que pode ocorrer em qualquer período do ano, mas indispensável para desembaçar as nossas lentes.
O horizonte, como você percebeu, não se move sozinho, mas responde ao lugar de onde olhamos. Na maturidade, experimentar esses novos lugares é uma das formas mais interessantes de descobrir onde podemos chegar.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.