Andréa Fidelis

Nunca é tarde: como ouvir sua própria voz e recomeçar a vida

Andréa Fidelis fala sobre a angústia de calar as próprias vontades e a potência das mulheres que decidem mudar o roteiro

A partir do filme "Sinta a sua voz", Andréa Fidelis fala sobre o momento em que uma mulher deixa de pedir licença para viver
A partir do filme "Sinta a sua voz", Andréa Fidelis fala sobre o momento em que uma mulher deixa de pedir licença para viver Foto : Divulgção / CP

Que bom te ver por aqui de novo.

Pega mais um café, senta perto e me diz: você conhece o som da tua voz?

Esses dias me emocionei reassistindo ao filme “Sinta o som da minha voz” que conta a história de uma adolescente, filha de pais surdos, que descobre um talento extraordinário para o canto. Não foi só pela história que me emocionei, mas foi porque me peguei pensando em mim e em muitas de nós, mulheres Bella Mais. Não pensei em nós na adolescência, mas pensei em nós, nas fases dos 40, 50, 60+ e como essa história se repetia em nossas vidas.

Para te explicar melhor, deixa eu começar por mim — e veja se você se reconhece nessa história. Aos 40 e tantos anos, eu tinha uma carreira consolidada, filhos encaminhados, marido, casa montada. Tudo certo, né? Mas, lá no fundo, algo me incomodava muito e eu queria mudar. Queria fazer algo novo, diferente, autoral.

Mas pensava sozinha: deixa de querer aparecer!! Isso é coisa de gente insegura com necessidade de validação. Algumas vezes eu tentava falar sobre isso para tentar entender o que se passava comigo, mas parecia que ninguém me ouvia. Para falar a verdade, nem eu mesma entendia direito o tamanho daquele desejo estranho de querer fazer algo diferente da minha vida. Afinal, a sociedade nos diz que, depois dos 40, a gente já deve estar "pronta" para colher o que plantou e desacelerar, quem sabe até esperar os netos chegarem e se acomodar.

Só que, ao calar essa voz e silenciar as minhas próprias vontades, a dor aumentava. Uma angústia pesada, daquelas que a gente tenta disfarçar com a rotina, começou a me assolar. E cada dia que eu levantava da cama eu tentava sorrir pra mim e fingir que tudo estava bem.

Olhando para trás, percebo o paralelo perfeito com o filme: muitas de nós, ao chegarmos na maturidade, estamos gritando por dentro para aparecer, para viver de verdade, para construir algo novo, algo nosso, genuino. Mas o mundo ao redor parece não entender o som dessa nossa nova voz.

Felizmente, algumas de nós conseguem romper o silêncio. Elas sentiram o som de suas vozes e, em vez de esperarem um convite, decidiram cantar sozinhas e abrir seus próprios espaços. Vejo isso acontecer todos os dias.

Na faculdade onde leciono e atuo, canso de ver mulheres com 40+, 50+, 60+ voltando aos bancos escolares, escrevendo um novo caminho e realizando sonhos antigos. São donas de casa que se transformam em advogadas ou psicólogas; engenheiras que viram artistas; contadoras que se descobrem maratonistas. Mulheres que decidiram deixar de ser um fundo apagado na foto da própria vida para se tornarem luzes cintilantes, brilhando com a própria energia (e que energia quando se escuta a si mesma).

Mas não pense que eu acho isso fácil. Eu sei o preço que se paga quando se quer dar voz a si mesma. Sair do quadrado e quebrar a forma que nos engessa dá um medo danado. Dá frio na barriga. Mas chega um momento em que não dá mais para negar quem somos, não dá mais para viver a vida escrita pelo roteiro que os outros escreveram pra nós, não dá mai para sermos a filha, a esposa, a mãe e a profissional que desenharam pra gente sem nos perguntar nada, mas que aceitamos por imaturidade, por insegurança ou por sermos surdas e mudas sobre o nosso desejo.

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Mas viver em silêncio, sabendo cantar lindamente, nos aprisiona e nos mata! Parafraseando a cantora Pink na música Try, quando há um desejo guardado, há uma chama. Se a gente finge que não vê, essa chama vai se transformando em uma fogueira enorme, um incêndio interno que parece que vai nos queimar e consumir por completo.

Não tenha medo desse fogo. Ele não veio para te destruir. Esse fogo é a tua pulsão de vida te chamando de volta para o jogo: ainda é tempo, sempre dá tempo! Por isso, como diz o refrão da música: “Where there is desire, there is gonna be a flame... You gotta rise and try, and try, and try” (Onde há desejo, haverá uma chama... Você tem que se levantar e tentar, tentar e tentar).

Sinta a sua voz. Ela está gritando aí dentro agora. Não se faça de surda para o seu desejo por medo de que ele vá destruir o seu casamento, afastar seus filhos ou apagar a sua identidade. Esse fogo que queima aí dentro não é destruição; é a liberdade derretendo as amarras que te prenderam até aqui. É o que vai te libertar para cantar alto e deixar a tua marca no mundo.

Você está se ouvindo?

Então, vem viver! Eu estou aqui contigo.

Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).