Puxa uma cadeira, ou melhor, vem aqui para o sofá. Deixa eu te servir mais um pouco de café, porque hoje a nossa conversa é daquelas bem íntimas, de olho no olho. Quero te fazer uma pergunta: quando você se olha no espelho, quem você vê? Vá lá no espelho e pergunte a ele: espelho, espelho meu, quem eu vejo aí realmente sou eu? Ou estou apenas interpretando o papel que escreveram para mim lá atrás?
Não se assuste, essa é apenas uma provocação para pensarmos juntas se você está presa na imagem do teu pai, dos teus irmãos ou dos teus filhos. Quero que você pense comigo se a sua imagem foi construída e se cristalizou em alguém que você acreditou que era você, mas não é. Se você acredita que seu comportamento é imutável e te prende ao passado, te impedindo de construir um presente.
Mas vamos dar um passo atrás para entender essa questão: talvez você conheça aquela famosa música "Modinha para Gabriela", do Dorival Caymmi, que a Gal Costa cantava: "Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo sim, vou ser sempre assim...". Na ficção, é lindo. Mas na vida real, e especialmente na nossa carreira, a chamada "Síndrome de Gabriela" é uma rasteira silenciosa. Ela faz a gente acreditar que a nossa personalidade é imutável e nos deixa paralisadas em um lugar que, muitas vezes, nem fomos nós que escolhemos.
Sabe de onde isso veio? Olha para a tua infância, quando pais, irmãos, parentes e vizinhos taxavam seu comportamento, debochavam ou te criticavam dizendo que só podia ser "coisa sua". E o pior é que você acabou aceitando isso como uma verdade absoluta sobre si mesma e a traz até hoje. Você se lembra dessas frases?
Eu começo abrindo o meu coração: eu me lembro perfeitamente de ouvir, durante anos, que eu era uma criança "preguiçosa". Todo mundo na família repetia isso, e eu cresci com essa culpa. Mas a verdade real? Eu era a única filha mulher em uma casa com dois irmãos homens. Minha mãe trabalhava fora e adivinha quem carregava o piano da faxina pesada das sextas-feiras? Eu. Quem arrumava as camas, lavava a louça, fazia o almoço? Eu. Enquanto isso, meus irmãos assistiam confortavelmente à televisão na sala. E por que me chamavam de preguiçosa? Só porque eu reclamava da injustiça de ter que fazer tudo aquilo sozinha.
Agora é a tua vez de lembrar: o que fizeram você acreditar? "Você é muito opinativa para uma mulher". "Ninguém gosta de mulher mandona". "Você é muito chorona". "Você não tem modos para falar". "Mulher não escolhe, é escolhida". "Você não serve para matemática". "Você é lenta". Etc, etc, etc.
A gente cresce ouvindo essas coisas e vai se moldando e se engessando em um preconceito sobre nós mesmas. Aceitamos o rótulo. Ficar parada na "Gabriela" que criaram para nós é mais cômodo, mesmo que seja um lugar apertado e desconfortável. Afinal, a dor conhecida a gente já sabe como manejar; o medo de mudar e enfrentar o novo é o que nos gera ansiedade.
E o pior é que a gente leva essa postura conformada direto para as nossas carreiras e nosso trabalho. Também ouvimos a vida inteira que ser mãe é prioridade máxima na vida de uma mulher. Também ouvimos que é nosso dever cuidar da casa e dar espaço para os homens. O que isso tem de relação com a Síndrome de Gabriela?
Deixa eu te contar um dado chocante de uma pesquisa publicada pela Harvard Business Review. Eles acompanharam a trajetória de homens e mulheres graduados no prestigiado MBA de Harvard. Na saída da faculdade, as mulheres casadas planejavam priorizar suas carreira igualmente à do parceiro. Mas a realidade foi um balde de água fria: na prática, cerca de 60% dos homens admitiram que suas carreiras foram priorizadas em detrimento a de suas esposas enquanto a grande maioria das mulheres altamente qualificadas colocou seus planos profissionais no banco de trás para assumir a maior parte dos cuidados com os filhos e o lar, abrindo mão de suas ambições.
Se até as mulheres com os diplomas mais cobiçados do mundo acabam caindo nessa armadilha por causa do papel de cuidadora que nos é ensinado desde o berço, imagine nós no dia a dia? E sabe o que acontece conosco quando temos 40+, 50+ ou 60+? Acreditamos que nascemos assim, crescemos assim e seremos sempre assim. Isso faz com que nossa vida fique emperrada, feito uma árvore seca em meio a um jardim que não nos agrada.
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Mas deixa eu te contar a parte bonita de estarmos conversando aqui no sofá: o roteiro da tua vida não está fechado.
Eu tenho visto um movimento lindo de mulheres que decidem, finalmente, rasgar a cartilha da "Gabriela". Mulheres que olham para o espelho e decidem que é a vez de descobrirem quem realmente são, ou se transformarem em quem querem ser. Elas voltam para a faculdade aos 40, 50 ou 60 anos. Descobrem novas vocações, abrem o próprio negócio, mudam drasticamente de carreira e mostram que nunca é tarde para se reinventar. Elas entenderam que aquela menina do passado, que reclamava da louça enquanto os outros descansavam, não era preguiçosa — ela era justa. E que aquela profissional que se posiciona de forma firme na reunião não é "opinativa demais" — ela é brilhante.
Você não precisa morrer sendo a Gabriela que os outros projetaram. Quem sabe, dentro de você, esses rótulos já estão carcomidos e não fazem mais nenhum sentido. Descubra-se em capacidades e vontades que você nem imagina. Questione todas as falas que te engessaram em uma Gabriela que não é sequer o reflexo de quem você é. Mande esse espelho antigo de volta para Nárnia e refaça a tua jornada. Mudar de rota não é traição; é evolução. E, como diz a minha amiga Cris: viver não é a mesma coisa que sobreviver.
Agora me conta, aqui bem pertinho: que frases disseram para ti, sobre você, que você acreditou? Quando você olha para a sua carreira hoje, você está sendo quem você realmente quer ser, ou apenas quem te disseram que você deveria ser? Deixa o teu comentário aqui embaixo. Vamos conversar, nos acolher e, quem sabe, rascunhar juntas o teu próximo passo!
Andréa Fidelis é palestrante, consultora organizacional na Capital Care. PhD em Estratégia Organizacional. Especialista em comportamento organizacional, atua no desenvolvimento de pessoas, impulsionando a performance sustentável em empresas.
