Andréa Fidelis

Direitos conquistados podem ser perdidos: votar é existir

Andréa Fidelis reflete sobre como direitos conquistados podem ser perdidos e por que o voto representa voz, cidadania e o direito de existir

Perder o direito ao voto é ver essa dominó cair ao contrário: é ir perdendo esses direitos um a um, diz Andréa Fidelis
Perder o direito ao voto é ver essa dominó cair ao contrário: é ir perdendo esses direitos um a um, diz Andréa Fidelis Foto : Canva / Divulgação / CP

Puxa uma cadeira, toma mais um gole desse café e me escuta com o coração aberto, porque hoje nossa conversa não é sobre opinião — é sobre sobrevivência.

Quero te fazer uma pergunta dura: você acha que os direitos que usufruímos hoje são eternos? Eu te digo com todas as letras: o que se conquistou pode ser perdido. E se nós perdermos o direito de votar, perdemos o direito de existir. Voltamos a ser objeto e propriedade do outro, deixamos de ser vistas como seres humanos.

Você acha que eu estou exagerando? Então vamos olhar para os fatos.Todos nós acompanhamos com dor a opressão em que vivem as mulheres afegãs hoje. Após a entrada do primeiro governo Talibã (1996), elas foram perdendo os direitos gradativamente: primeiro foi o de votar e de participar da vida política do país, logo em seguida perdem o direito de fazer graduação.

As restrições foram escalonando a tal ponto que atualmente as mulheres são obrigadas a usar burcas, não podem mostrar o rosto, não podem sair às ruas sem a autorização e o acompanhamento de um homem e são proibidas de trabalhar. As meninas só podem estudar até o sexto ano. Seu destino é o de casar e ter filhos com quem o pai escolher.

Mas não foi sempre assim! Em 1964, as mulheres afegãs votavam, usavam roupas semelhantes às do Ocidente, eram médicas, juízas e advogadas. O Talibã foi retirando esses direitos progressivamente, passo a passo. E agora, em 2026 aprovaram uma lei estarrecedora que autoriza o marido a bater na esposa, desde que não quebre seus ossos.

Parece uma realidade distante de nós? Pois saiba que o germe dessa mentalidade está vivo e respirando aqui no Brasil, sim!!! E o que é pior: nascendo novamente de um movimento conservador que tenta manipular a fé e fazer com que algumas mulheres defendam a própria perda de direitos. Não é só sobre o voto; é sobre o silenciamento e o controle absoluto do feminino.

A fala recente do “sujeito” Paulo Figueiredo, dizendo com todas as letras que "mulher não sabe votar" e que vota mal, não é uma fala perdida, ingênua ou isolada. É uma declaração perigosa, premeditada e articulada. Estamos vivendo a pressão de um tripé perigoso: religião, política e poder. Nesse tripé muitos lobos se vestem em peles de cordeiro, manipulando as palavras e usando o nome de Deus em vão.

Precisamos lembrar do caminho. Foi só depois de conquistarmos o direito de votar no Brasil, em 1932, que conseguimos abrir as portas para todo o resto. Veio o direito de trabalhar sem a autorização do marido (1962), o direito ao divórcio (1977), a igualdade perante a lei na Constituição de 1988, a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015).

No mundo foi a mesma coisa: em cada país onde a mulher conquistou o voto, ela conquistou o direito de ter conta em banco, de gerir seu próprio patrimônio, de estudar e de ocupar espaços de liderança. Perder o direito ao voto é ver essa dominó cair ao contrário. É ir perdendo esses direitos um a um até nos tornarmos mercadoria.

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Você conhece a metáfora do sapo na água quente? Se você joga um sapo na água fervendo, ele pula imediatamente para se salvar. Mas se você o coloca em água fria e vai esquentando aos poucos, ele fica ali, parado, sem perceber o perigo, até morrer queimado. É exatamente isso que tentam fazer conosco.

Se esse movimento avançar, não haverá mulheres no mercado de trabalho. Não haverá médicas, advogadas, engenheiras, políticas ou executivas. Só restará o trabalho invisível e escravo de dona de casa, servidora do pai, do marido e dos filhos homens — sem remuneração, sem escolha e sem direitos. Nós podemos perder o direito de estarmos lendo e escrevendo esta coluna.

Perder o direito de trabalhar, de pensar, de ter CPF e de tomar decisões sobre nossas próprias vidas. Não haverá mais esse direito para mim, para você, para suas filhas ou para suas netas. Demora-se séculos para conquistar um direito, mas leva-se um segundo para perdê-lo.

Hoje não estamos falando de curtidas ou de engajamento em rede social. Estamos falando de assegurar o nosso direito básico de SER humano. Precisamos enviar essa reflexão para todas as pessoas — homens e mulheres. Precisamos viralizar esse alerta!

Vamos ancorar a nossa força nas mulheres incríveis que abriram esse caminho para nós, como Celina Guimarães Viana (a primeira eleitora a votar no Brasil), Bertha Lutz, Carlota Pereira de Queirós e Maria Tomásia Figueira Lima. Mas não só elas, mas muitas mulheres “comuns” que vieram antes de você como a sua mãe, suas tias, sua professora, que ousaram querer ter uma carreira, trabalhar e não ser dependente financeira e emocionalmente de ninguém. Todas elas também abriram esse caminho para você e para nós.

Você tem trabalhado, pensado e construído a sua vida até aqui. Você e eu fazemos parte dessa linha de frente que garante o direito de existir, de pensar e de trabalhar. Precisamos continuar vigilantes para manter a nossa liberdade. Mãos à obra, porque o nosso direito de ser quem somos não está à venda e não será negociado!

Escreve aqui nos comentários: você já tinha parado para pensar na velocidade com que nossos direitos podem ser retirados? Vamos espalhar essa conversa e manter a nossa guarda levantada!

Andréa Fidelis é palestrante, consultora organizacional na Capital Care. PhD em Estratégia Organizacional. Especialista em comportamento organizacional, atua no desenvolvimento de pessoas, impulsionando a performance sustentável em empresas.