Andréa Fidelis

Você tem a Síndrome da Boazinha e ela destrói sua liderança

A colunista Andréa Fidelis mostra como o medo de desagradar e a esquiva de conflitos a qualquer custo podem prejudicar a gestão de líderes

“Liderar não é sobre ser querida”, diz Andréa
“Liderar não é sobre ser querida”, diz Andréa Foto : Divulgação / CP

Vamos começar nossa conversa semanal de pé, ao lado da máquina de café da empresa. Hoje te falo “na lata”: Você tem a síndrome de boazinha!

Não estou te fazendo uma pergunta. Estou afirmando. E a verdade nua e crua é que carregar a “Síndrome da Boazinha” é o principal motivo pelo qual você não é promovida, não consegue negociar salários melhores, tem medo de pleitear flexibilidade de horários e, o mais impactante de tudo: não consegue se sustentar no lugar de líder.

A Síndrome da Boazinha paralisa mulheres extraordinárias. Ela se reflete naquele desconforto visceral em desagradar os outros e na busca desesperada por evitar conflitos a todo custo. A mulher boazinha quer que todo mundo goste dela. Para alcançar esse ideal impossível, ela sistematicamente coloca a necessidade do outro em primeiro lugar — e se prejudica no processo.

Quer ver como isso se manifesta no seu dia a dia de trabalho?

Na reunião da equipe: Fica deliberado que alguém precisa assumir a tarefa invisível e burocrática de escrever a ata do encontro. Ninguém se manifesta. O silêncio fica constrangedor e, para “salvar” o grupo, você levanta a mão e pega mais esse fardo para si.

Na gestão de recursos e prazos: Alguém precisa abrir mão de uma data de folga, de um orçamento, de um equipamento ou de um prazo de entrega. Em vez de defender o seu projeto, você se desdobra, faz malabarismos na sua agenda e trabalha até mais tarde só para que o colega não fique chateado com você.

Problemas de execução: Quando há uma crise ou reclamação, você pede desculpas assumindo toda a responsabilidade para si, mesmo que não seja a responsável pelo ocorrido.

Se aceitar esse papel subalterno já é péssimo para uma profissional em início de carreira, para um cargo de gestão ele é fatal.

Liderar não é sobre ser querida; é sobre ter estrutura emocional para suportar a frustração do outro projetada sobre você. Ser líder exige manter o posicionamento firme conforme as regras, a estratégia e as metas da empresa, sem ceder a contrapressões para contemplar carências ou caprichos individuais. Entenda bem: não estou falando de falta de empatia ou de recusa em acolher um colaborador. Estou falando do padrão destrutivo em que a mulher se desagrada e se anula apenas para deixar o outro confortável.

Vejo isso com clareza no ambiente acadêmico onde atuo. Há professoras que, na ansiedade de serem amadas pelos estudantes, fazem absolutamente tudo por eles. Não apontam com clareza as deficiências de um trabalho, distribuem notas altas sem critério e concedem infinitas chances de recuperação. Fazem isso apenas para ficarem “bem na fita”, abrindo mão do rigor do ensino e falhando na missão de formar profissionais preparados para o mercado.

Nas empresas, o cenário é idêntico: líderes “boazinhas” não dão feedbacks corretivos necessários, não demitem quem afunda a equipe e deixam prazos estourarem, sobrecarregando os melhores funcionários para não ter que encarar uma conversa difícil com os maus profissionais.

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Reportagens e estudos destacados pela revista Forbes alertam há anos para esse fenômeno e para o duplo padrão injusto que enfrentamos no corporativo. Quando um homem é firme, direto e pontual em suas decisões, ele é lido pelo mercado como um líder competente, sério e focado em resultados. Quando uma mulher adota exatamente a mesma postura firme, direta e pontual, é rotulada como grossa, histérica ou mal-educada.

Exercer a liderança exige um estômago de aço para suportar as críticas constantes, os conflitos inevitáveis e a animosidade que surgem de todas as direções — da equipe, dos pares, dos clientes e dos usuários. E esse ambiente de pressão fere de morte a fantasia da “boa moça”. Liderar é sobre fazer o que é certo para a organização, e não o que os outros acham que é bonitinho.

Eu falo isso com a autoridade de quem esteve e está na linha de frente. Eu exerci e exerço cargos de coordenação há anos. Eu sei perfeitamente que falam de mim pelos corredores das instituições por onde passei e onde trabalho. Sei que muitos desses comentários não são elogios fofos. Estar na liderança é estar em uma vitrine exposta, sendo questionada e testada o tempo todo. Se eu quisesse ser amada por 100% das pessoas, estaria vendendo sorvete, não gerindo pessoas e processos.

A Síndrome da Boazinha nunca vai te fazer prosperar. Ninguém constrói uma carreira respeitada ou uma empresa de alta performance pisando em ovos para evitar atritos.

Por isso, puxa a cadeira e faz essa reflexão sincera comigo hoje:

Quantas vezes você assumiu um volume desumano de trabalho só para que as pessoas não pensassem mal de ti?

Quantas vezes você recuou de uma posição estratégica válida só para agradar a vontade do outro?

Quantas vezes você engoliu o seu medo, deixou de encarar um confronto necessário e não sustentou o seu ponto de vista quando foi confrontada com hostilidade?

Chega de pedir desculpas por existir e por decidir. O respeito profissional não nasce do conformismo; ele nasce da sua capacidade de sustentar o seu valor, mesmo quando o ambiente esquenta.

Agora me conta aqui nos comentários: em que momentos da tua carreira você percebe que a “boazinha” assume o controle e te impede de dar o próximo passo? Deixa o teu relato. Quero muito te ler e conversar com você!

Andréa Fidelis é palestrante, consultora organizacional na Capital Care. PhD em Estratégia Organizacional. Especialista em comportamento organizacional, atua no desenvolvimento de pessoas, impulsionando a performance sustentável em empresas.