Andréa Fidelis

Mulheres líderes: por que elas geram mais resultados?

A colunista Andréa Fidelis explica como a visão integrada de gestoras influencia seu jeito de liderar e obter sucesso nos empreendimentos

Elas tendem a liderar com “visão polvo”, afirma Andréa
Elas tendem a liderar com “visão polvo”, afirma Andréa Foto : Divulgação / CP

Hoje quero te convidar a entrar comigo direto na sala de reuniões das corporações e dos governos — aquele espaço em que as decisões mais estratégicas são tomadas e onde, durante décadas, tentaram nos convencer de que só podíamos estar como secretárias, servindo café ou limpando a sala.

Há centenas de anos, o mercado corporativo tradicional vendeu a ideia de que o líder ideal é alguém com as características de um general militar, focado em ganhar a qualquer custo. É a obsessão por avançar e conquistar, sempre em linha reta, através da busca cega pela vitória, sem se importar se a estratégia vai esgotar a tropa ou devastar o território ao redor. O ‘ganhar’ (hoje em dia traduzido por dinheiro) virou um objetivo isolado, descolado da vida e da sustentabilidade.

Mas, qual o problema desse modelo? Ele parte de uma visão de “cobra”, um olhar linear e focado em um só ponto. Quando há obsessão por conquistar sem medir as consequências, se cria um sistema autodestrutivo, individualista, irresponsável e predatório (alguma semelhança com o que vivemos hoje?). O problema é que, quando você olha só para a presa, não enxerga a tempestade que vem ao lado, não cuida das pessoas e ignora os impactos sociais do caminho.

É aí que a liderança feminina revoluciona. Mulheres na gestão tendem a liderar com uma capacidade que podemos chamar de "visão polvo": uma inteligência integrativa, capaz de articular múltiplos ‘braços’ simultaneamente. É o olhar que conecta o resultado financeiro à saúde organizacional, à inovação, à responsabilidade social e à meta de lucros ao engajamento da equipe para a busca de soluções realistas e sustentáveis a longo prazo.

Essa visão de radar 360 graus é característico das mulheres, pois elas têm essa habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo: analisar o contexto presente com projeção do futuro. Mulheres tendem a ter, também, mais empatia, considerando na equação as pessoas, a sociedade, o meio ambiente e os impactos das suas decisões em diferentes esferas.

Essa questão ficou EVIDENTE na época do covid-19. Um estudo publicado pelo Centre for Economic Policy Research (CEPR) analisou 191 países e demonstrou que as nações governadas por mulheres registraram, em média, a metade do número de mortes e de contágios por Covid-19 em comparação às lideradas por homens.

Um desempenho histórico conquistado graças à atuação de líderes como Jacinda Ardern (Nova Zelândia), Angela Merkel (Alemanha), Sanna Marin (Finlândia) e Tsai Ing-wen (Taiwan), que uniram rigor analítico, transparência, empatia e agilidade para zerar as transmissões e proteger suas populações e economias. Elas provaram que não lideraram apesar de serem mulheres, mas com maestria justamente por aplicarem a essência da liderança feminina: gestão de risco baseada em evidências, visão sistêmica e centralidade nas pessoas.

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E se alguém te disser que isso é “intuição” ou “romantismo”, responda com mais dados:

Os relatórios do mercado global provam que o estilo “polvo feminino” de gestão gera muito mais dinheiro e longevidade para os negócios. O relatório Delivering through Diversity, da McKinsey & Company, demonstrou que empresas com maior diversidade de gênero nas equipes executivas têm 21% mais chances de apresentar rentabilidade acima da média e 27% mais chances de superar concorrentes em criação de valor.

No mesmo tom, o estudo Credit Suisse Gender 3000 revelou que ter ao menos uma mulher no conselho de administração aumenta o desempenho financeiro da empresa em até 26% em relação àquelas formadas apenas por homens.

Mulheres no poder — e com poder de decisão real — constroem o que chamamos de lucro sustentável. Elas não buscam apenas o resultado do próximo trimestre ou acabar com a concorrência; elas garantem a saúde do ecossistema inteiro: pessoas, mercado, meio ambiente.

Essa visão integrativa se traduz em resultados extraordinários no C-Level mundial. Se ainda não está convencido, aqui tem mais alguns exemplos: ao assumir a PepsiCo em 2006, Indra Nooyi antecipou tendências ao focar em sustentabilidade, aumentando as vendas líquidas da gigante em 80%.

Na General Motors, Mary Barra assumiu em meio a uma grave crise de segurança e reestruturou a cultura interna para liderar a maior transição histórica rumo aos veículos elétricos; Reshma Saujani criou o Girls Who Code, capacitando mais de 500 mil meninas para a tecnologia e provando que a escassez de mulheres no topo nunca foi falta de capacidade, mas sim barreiras culturais que precisam ruir.

Por isso, diante de todos esses números, com cases de sucesso e evidências científicas, eu te pergunto: será mesmo que nós não sabemos votar? Será mesmo que nós não sabemos liderar? Ou o que incomoda a cultura retrógrada é ver que, quando a mulher assume o comando com sua capacidade de integrar e cuidar, a empresa inova mais, lucra mais e transforma o mundo ao redor?

A verdadeira alta performance não é linear. Ela é responsável e sustentável. Ela cuida do negócio para além do ganhar dinheiro. O futuro dos negócios pertence a quem sabe gerenciar a complexidade com humanidade e inteligência.

Deixa o teu comentário aqui embaixo: você já vivenciou na prática essa diferença entre uma liderança integrativa e uma gestão engessada? Vamos trocar essa ideia!

Andréa Fidelis é palestrante, consultora organizacional na Capital Care. PhD em Estratégia Organizacional. Especialista em comportamento organizacional, atua no desenvolvimento de pessoas, impulsionando a performance sustentável em empresas.