Andréa Fidelis

Mulher contra mulher: entenda a síndrome da abelha rainha

Comportamento de rivalidade feminina em ambiente de trabalho é moldado pelo sistema, dizem pesquisadores

A Síndrome da Abelha Rainha pode ser favorecida por ambientes de trabalho competitivos, nos quais mulheres passam a enxergar outras profissionais como ameaça
A Síndrome da Abelha Rainha pode ser favorecida por ambientes de trabalho competitivos, nos quais mulheres passam a enxergar outras profissionais como ameaça Foto : Magnific / Divulgação / CP

Se você me acompanha por aqui, sabe o quanto eu defendo a liderança feminina. Já conversamos sobre o nosso olhar integrativo, a nossa capacidade de gerir crises com empatia, a força do nosso trabalho e a construção de uma autoridade que não precisa do cargo no crachá para se impor. Mas hoje eu quero te convidar para uma conversa incômoda, daquelas que a gente prefere varrer para debaixo do tapete.

E sim, pode suspirar: lá vem mais uma "síndrome" para a nossa conta.

Mas precisamos falar abertamente sobre a Síndrome da Abelha Rainha.

Sabe aquele fenômeno em que a mulher chega a um cargo de alta liderança, mas, em vez de estender a mão e puxar outras profissionais, assume uma postura de bloqueio, rivalidade e rigidez excessiva com as suas pares e subordinadas? Aquele cenário doloroso em que a maior crítica ou barreira para o seu crescimento dentro da empresa é justamente a sua gestora mulher?

Antes que a gente aponte o dedo com julgamento moral, vale olhar para a ciência. Pesquisadores como Kelli Green investigam esse comportamento há anos e chegaram a uma conclusão cristalina: a Abelha Rainha não nasce assim; ela é moldada pelo ambiente.

Quando uma mulher atua em um ambiente corporativo profundamente masculino, agressivo, extremamente competitivo e hostil — onde as vagas no topo para o nosso sexo são contadas a conta-gotas —, ela entra em modo de sobrevivência. Inconscientemente, ela aprende que, para ser aceita no clube dos homens, precisa se distanciar das outras mulheres, adotar traços hipermasculinizados e provar que é "diferente da maioria". É nesse momento que ela nega seu jeito feminino, juntando-se ao mercado que diz que “é coisa de mulher” ser compreensiva, acolhedora, afetiva. E passa a ser dura e rígida com suas equipes.

Sabe como eu sei disso? Já fui assim, e confesso: - eu cobrava muito das minhas funcionárias, sendo mais rígida para saídas para médico, reuniões de escola do que meus colegas líderes homens.

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E isso não fui só eu. Você quer ver como isso se manifesta no dia a dia?

  • A gestora exige o dobro de perfeição, presença e horas dedicadas das subordinadas mulheres do que exige dos homens da equipe, usando a justificativa de que "no meu tempo ninguém facilitou para mim".
  • Em reuniões com a diretoria, ela corta ou desvalida as ideias trazidas por outras mulheres para garantir que continue sendo a "única voz feminina ouvida" na sala.
  • Ela ironiza ou pune veladamente colegas que precisam de flexibilidade para cuidar dos filhos, reproduzindo o machismo que ela própria sofreu ao longo da carreira.

O grande perigo disso é que o ambiente hostil nos contamina. Quando estamos imersas em uma cultura de rivalidade, começamos a enxergar outras mulheres como ameaças diretas, e não como aliadas estratégicas. É a armadilha perfeita do sistema: colocar mulher contra mulher enquanto a estrutura do topo permanece intacta, dominada pelos mesmos de sempre.

Mas uma colmeia de uma abelha só não dura. Reter o espaço só para si para manter o privilégio da exceção é um tiro no pé da longevidade corporativa.

A verdadeira maturidade de liderança não está em ser a única mulher à mesa de negociação, mas em ter a coragem de puxar a cadeira para que outras também se sentem ao seu lado. Agora me conta aqui nos comentários: você já viveu a Síndrome da Abelha Rainha na pele, ou já sentiu na pele que ter uma chefe mulher é mais difícil do que ter um chefe homem?

Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).