Andréa Fidelis

Perigo de amar o que faz: burnout silencioso atinge mulheres

A síndrome do esgotamento profissional, muitas vezes confundida com paixão pelo trabalho, afeta com mais força quem tem alta responsabilidade e comprometimento

Dedicação sem limites e sobrecarga constante podem fazer com que os sinais de esgotamento profissional sejam percebidos apenas quando a saúde já começa a sentir os efeitos
Dedicação sem limites e sobrecarga constante podem fazer com que os sinais de esgotamento profissional sejam percebidos apenas quando a saúde já começa a sentir os efeitos Foto : Magnific / Divulgação / CP

Quer saber se está com burnout? Deixa eu te fazer uma pergunta direta: você já se pegou trabalhando até mais tarde, engolindo o almoço na frente da tela ou respondendo mensagens de trabalho no fim de semana — não por obrigação, mas porque você ama o que faz ou se sente responsável pelas tuas entregas?

É aqui que mora o maior perigo. A gente aprendeu que o burnout é coisa de quem odeia o próprio emprego. Grande engano! A síndrome do esgotamento profissional é silenciosa e afeta com ainda mais força quem é apaixonada pela carreira ou tem um senso de responsabilidade e comprometimento alto. Quando gostamos e/ou nos importamos com o que fazemos, a linha que separa o entusiasmo da exaustão fica invisível. E, quando você percebe, a saúde já ficou pelo caminho.

E os números não mentem. O Brasil é o segundo país com maior índice de burnout no mundo, atrás apenas do Japão. Mas adivinha em quem essa conta pesa mais? Nas mulheres. A dupla ou tripla jornada — gerir a carreira, a casa, a carga mental da família e a gestão emocional dos outros — cria o ambiente perfeito para o colapso. É minha amiga leitora, você faz parte dessa estatística, tenho certeza.

O problema é que o burnout costuma ser confundido com tristeza ou depressão. Mas ele manda sinais corporais claros muito antes: Dá uma olhada se você, na última semana apresentou alguns desses sintomas?

  1. No corpo: Cansaço crônico que o fim de semana não cura, insônia, dores musculares- principalmente nos ombros e nos pescoço – dor de cabeça sem causa física evidente, problemas digestivos e uma imunidade que vive no chão.
  2. Na mente e nas emoções: Irritabilidade constante, falta de paciência com os outros, lapsos de memória, perda de concentração, cinismo, sensação de que está sempre atrasada nas entregas de trabalho, um senso de que tudo é urgente (até mesmo na vida pessoal) e aquela sensação de inutilidade, como se nada do que você faz tivesse pouco valor.

Mas entenda uma coisa crucial e cristalina: o burnout é uma doença do ambiente de trabalho. Reconhecido como fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde, ele nasce de culturas corporativas tóxicas ou até de empresas “bacanas” mas com sobrecarga estrutural constante, metas inalcançáveis, falta de reconhecimento e falta de autonomia.

Tratar o burnout com remédios para ansiedade ou alguns dias de folga e voltar exatamente para o mesmo ambiente doente é o equivalente a tomar um xarope para o pulmão e voltar para uma sala cheia de fumaça tóxica. O vírus que te adoeceu continua lá.

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É por isso que, quando levo minhas palestras e treinamentos sobre saúde mental e inteligência organizacional para as empresas, bato sempre na mesma tecla com os gestores: não adianta exigir alta performance se o ecossistema corporativo é o que causa o adoecimento nas pessoas. Cuidar do ambiente organizacional é dever estratégico da liderança para garantir uma empresa saudável mentalmente e financieramente. Afinal de contas pessoas doentes produzem resultados falhos e que vão aparecer cedo ou tarde, inviabilizando o negócio, ou gerando muitos erros, necessidade de retrabalho e perda de recursos.

Ter gente doente trabalhando é como um vazamento de água dentro da parede. Em um primeiro momento ninguém nota, mas vai umidecendo a parece, estragando as estruturas e aumentando a conta de água. Quando chegamos a ver o mofo e o bolor instalado é preciso derrubar a parede e reconstruir todo aquele setor novamente, com perdas materias e estratégicas impactantes.

  1. Estabeleça fronteiras inegociáveis: Amar o seu trabalho não significa dar a ele 24 horas do seu dia. Coloque limites claros nos seus horários e na sua disponibilidade para estar trabalhando.
  2. Monitore seus sintomas físicos: O corpo avisa antes da mente surtar. Não ignore a dor de cabeça recorrente ou a insônia frequente, a fome exagerada ou a ansiedade recorrente.
  3. Exija lideranças saudáveis: Se você lidera, avalie a carga que coloca sobre a sua equipe e sobre você mesma. O exemplo vem do topo. Evite entrar em contato nos finais de semana. Respeitar sua equipe começa por respsitar você também.

A sua dedicação profissional é linda, mas ela não vale a sua vida. Um hora você vai se prceber doente e isso pode ter um impacto enorme em todas as áreas da sua vida. E você, já se viu ultrapassando os limites do próprio corpo só porque ama o que faz ou se sente muito responsável pelas suas tarefas? Sente que sua empresa precisa conversar seriamente sobre saúde mental e prevenção ao burnout? Deixa o teu comentário, quero ler e conversar com você!

Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).