Literatura feminina que inspira: Confira 10 dicas de livros potentes escritos por mulheres

Apesar de ganharem vida em diferentes épocas e contextos sociais, as obras criadas por mulheres trazem reflexões que ultrapassam décadas

Bella Mais traz autoras de diversas nacionalidades com obras que abordam o universo feminino
Bella Mais traz autoras de diversas nacionalidades com obras que abordam o universo feminino Foto : Pinterest / Reprodução / Érica Sena / Especial / CP

Em um mundo cada vez mais digital, é comum que nossas inspirações surjam a partir das telas. Entretanto, mesmo com várias opções de tutoriais, dicas e instruções, que servem de apoio na busca pelo autoconhecimento feminino, há quem prefira olhar para fora de si e buscar aprendizados em outras histórias como forma de reflexão. Muitas destas narrativas estão em obras literárias criadas em diferentes épocas, países e contextos sociais.

Desde a famosa e premiada escritora Clarice Lispector até os diários de Carolina Maria de Jesus, a literatura feminina não só inspira como nos faz refletir. Abaixo, 10 dicas de livros potentes escritos por mulheres:

Correio Feminino - Clarice Lispector (2006)

Correio Feminino | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

Em Correio Feminino, é a "jornalista feminina" que se apresenta ao leitor. Clarice se aventura na criação de páginas dedicadas às mulheres no periódico Comício, criado em 1952, sob o pseudônimo de Tereza Quadros. Já no início dos anos 60, a escritora dá conselhos de beleza e dicas de como manter uma personalidade cativante para conquistar o bem-amado, dessa vez com o pseudônimo de Helen Palmer, nas páginas do Correio da Manhã. Ou ainda a ghost writer de Ilka Soares na coluna "Só para mulheres", publicada no Diário da Noite. Correio Feminino é acima de tudo uma deliciosa viagem no tempo. Em tom de uma conversa entre amigas, a escritora vasculha o universo da mulher com conselhos e reflexões. Clarice Lispector fala sobre os afazeres da casa, as dificuldades da mulher emancipada para conciliar a dupla jornada de trabalho, os cuidados com a beleza e os segredos da elegância.

Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus (1960)

Quarto de Despejo | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

O diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus deu origem a este livro, que relata o cotidiano triste e cruel da vida na favela do Canindé, em São Paulo, durante a década de 1950. A obra, formada por 20 diários escritos entre 15 de julho 1955 e janeiro de 1960, tem uma linguagem simples, mas forte e marcante. Carolina narra como é ser mulher e mãe de três filhos em uma comunidade esquecida pelo poder público. A obra se destaca por sua abordagem crua e realista da pobreza extrema, da discriminação racial e de gênero, e das duras condições de vida nas favelas brasileiras. No livro, Carolina expressa suas opiniões sobre política, sociedade e os eventos cotidianos que testemunha em sua luta diária pela sobrevivência, coletando papel e metal para vender.

Aprendendo a Viver - Clarice Lispector (2004)

Aprendendo a Viver | Foto: Érica Sena /Especial / CP

O livro reúne uma seleção das crônicas confessionais escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. Os textos confessionais trazem Clarice na primeira pessoa, detalhando passagens marcantes em sua história e refletindo sobre diversos temas, além de revelar particularidades de seu cotidiano. A coletânea ajuda a compreender melhor a obra literária deixada pela escritora. No livro, ela conta, por exemplo, que nunca superou o sentimento de culpa pela morte de sua mãe, fala das humilhações de que foi vítima na infância, cogita a origem de sua necessidade de proteção masculina, revela quais foram os livros que marcaram cada fase de sua vida e rejeita o rótulo de intelectual.

As meninas - Lygia Fagundes Telles (1973)

As Meninas | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A obra acolhe essas três personagens em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas, assumindo ora o ponto de vista de uma ora de outra das protagonistas. A autora cria um romance pulsante que capta o espírito daquela época conturbada e de transformações, sobretudo comportamentais. Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido.


Mulheres, Raça e Classe - Angela Davis (1981)

Mulheres, Raça e Classe | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

A mais importante obra de Angela Davis, “Mulheres, raça e classe” traça um panorama histórico e crítico das questões entre a luta anticapitalista, a luta feminista e a luta antirracista passando pelos dilemas contemporâneos da mulher. O livro é considerado um clássico sobre a interseccionalidade de gênero, raça e classe. A perspectiva adotada por Davis realça a grandeza da obra destacando o papel das mulheres negras na luta contra as explorações que se perpetuam no presente.

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O Conto da Aia - Margaret Atwood (1985)

O Conto de Aia | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

O romance distópico de Margaret Atwood, se passa num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. Nesse Estado totalitário, as mulheres não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado, sendo as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. Ser uma aia significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar, depois que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas. Ainda que vigiada dia e noite, o destino de uma aia é melhor que o das não-mulheres, como são chamadas aquelas que não podem ter filhos, as homossexuais, viúvas e feministas, condenadas a trabalhos forçados nas colônias, lugares onde o nível de radiação é mortífero. Com esta história assustadora, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente.

Mulheres Que Correm Com Os Lobos - Clarissa Pinkola Estés (1989)

Mulheres Que Correm Com Os Lobos | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

Medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais frequentes entre as mulheres modernas, sobrecarregadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional. De acordo com a autora e psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, esse problema veio junto com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico. A obra identifica a essência da alma feminina, sua psique instintiva mais profunda, com o arquétipo da Mulher Selvagem, e propõe o resgate desse passado longínquo, como forma de atingir a verdadeira libertação.

Insubmissas lágrimas de mulheres - Conceição Evaristo (2011)

Insubmissas Lágrimas de Mulheres | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

A obra se apresenta como um livro de contos inspirado em entrevistas que a autora fez com mulheres negras. Narrado em primeira pessoa, Conceição deixa fluir sua escrevivência marcando como essas mulheres conseguiram criar alternativas para superar alguns sofrimentos. Algumas dessas narrativas contém gatilhos de violência doméstica e sexual. Os afetos, reflexões e deslocamentos que os contos da obra nos causam, são frutos que só a boa literatura, a que salva, pode nos trazer, reafirmando o lugar de destaque ocupado por Conceição Evaristo na literatura brasileira.

O nascimento de Joicy - Fabiana Moraes (2015)

O Nascimento de Joicy | Foto: Érica Sena /Especial / CP

Neste livro, Fabiana Moraes trata da temática da transexualidade com a profundidade que o assunto exige. Ao decorrer das páginas, conhecemos a história de Joicy, ex-agricultora do agreste pernambucano que busca o serviço público de saúde para uma cirurgia que mudaria seu corpo e sua vida. A autora também escreve sobre a dor, o suor, o assombro e a alegria de produzir a reportagem, publicada sob polêmica e aclamação em abril de 2011, além de expor a complicada relação com seu personagem. Num ensaio pioneiro, Fabiana apresenta o conceito de jornalismo de subjetividade, defendendo um olhar mais profundo na contemplação do mundo e dos seres humanos.

Mulheres Invisíveis - Caroline Criado Perez (2022)

Mulheres Invisíveis | Foto: Pinterest / Reprodução / CP

Nesta obra, Caroline Criado Perez reúne estudos de caso que explicitam como a perspectiva predominante na sociedade estabelece o homem como padrão e considera a mulher como exceção. Desta forma, mesmo quando os dados abrangem o universo feminino, acabam sendo ignorados na prática, o que contribui para o aprofundamento estrutural da desigualdade de gênero. Inovadora em sua abordagem, Caroline coloca em números o sofrimento de metade da humanidade, provando que o preconceito de gênero é muito mais que uma questão subjetiva.

*Sob supervisão de Márcio Gomes