O Carnaval é sinônimo de alegria para muitos brasileiros, mas, para as pessoas que não se identificam com a felicidade exibida nos blocos e nas redes sociais, o momento provoca tristeza. Registros de viagens, bloquinhos, fantasias e corpos sorridentes na internet criam a sensação de que existe um “jeito certo” de viver o período.
Essa ideia alimenta o que especialistas chamam de “felicidade tóxica”. Segundo a psicóloga e psicanalista Luciana Deretti, a pressão social para se sentir animado é maior no período da folia: “No Carnaval isso se intensifica porque a mensagem é clara: ‘É proibido não aproveitar’. Só que ninguém consegue sustentar alegria o tempo inteiro”, explica.
Dados do Ipsos Health Service Report 2025 (Relatório sobre os Serviços de Saúde 2025) mostram que 52% dos brasileiros veem a saúde mental como sua principal preocupação em relação à saúde. Ainda assim, a noção de que é preciso estar bem o tempo todo dificulta que muitas pessoas reconheçam o cansaço e a saturação de multidões que sentem nesta época. Isto cria a sensação de que não transbordar alegria equivale a algo de errado.
A obrigação de estar bem
O excesso de positividade pode gerar culpa e isolamento em quem não está se sentindo bem. Em vez de acolher o próprio momento, reconhecendo a sua necessidade, a pessoa passa a se comparar e a se cobrar. Segundo o psicólogo Nello Rangel Neto, autor do blog Psicologia do Cotidiano, as redes aumentam a pressão para se sentir feliz, pois criam o ideal de uma vida perfeita na qual só existe felicidade.
“Em busca do ideal, sem mácula, sem falha, a gente acaba não fazendo o que está ao alcance da nossa mão e que poderia ser de grande proveito para nossa aprendizagem pessoal”, diz o psicólogo. Ele explica que a busca pelo ideal está fadada ao fracasso e a frustração, já que essa noção não reflete a realidade observada.
A chamada felicidade tóxica não apenas nega apenas a tristeza, como invalida qualquer emoção socialmente considerada negativa, como frustração, medo, raiva ou cansaço. O resultado é um sofrimento emocional silencioso e danoso.
A importância de não estar feliz o tempo todo
Do ponto de vista psicológico, a tristeza tem função. Quando não está ligada ao rancor, ressentimento e culpabilização, o sentimento é bom, ajudando na elaboração de perdas, no autoconhecimento e na construção de resiliência. “As nossas dificuldades nos levam a parar, a pensar, a tentar resolver ou arrumar uma solução. Então uma boa tristeza nos leva à reflexão, à consciência e à possibilidade de uma autotransformação”, compartilha Nello.
Ao mesmo tempo, a psicóloga Luciana pontua que dar lugar à tristeza não equivale a vivenciá-la a todo momento. “Isso não significa valorizar o sofrimento, mas, sim, permitir que todas as emoções tenham espaço. A busca por uma felicidade constante e performática pode afastar a pessoa de suas necessidades reais”, diz.
Para algumas pessoas, a necessidade é de descanso, e o feriado pode ser uma oportunidade de desacelerar, se recolher ou simplesmente não fazer nada. “Cada um tem seu jeito de recarregar energia. Para alguns, é no meio do bloco; para outros, é no silêncio de casa. Respeitar isso é um ato de carinho consigo mesmo e de promoção de saúde mental”, alerta Luciana.
