A volta dos anos 60 e 70 despontam como grandes inspirações na moda e beleza para 2025. Dados do Google Trends mostram que tendências minimalistas têm perdido espaço nas buscas da plataforma, enquanto termos como “boho chic” cresceram consideravelmente ao longo do ano passado. Esse movimento destaca a valorização da arte em uma nova era marcada por autenticidade, inspirada em referências do passado.
A aposta em elementos clássicos para o mercado fashion não apenas impulsionam trends, mas também representam um estilo de vida que celebra a singularidade adquirida através do artesanal. Esse renascimento dos anos 60 e 70 também reflete uma crescente conscientização sobre o consumo.
A moda circular, o mercado de brechós e o destaque para peças produzidas por mãos cuidadosas ocupam espaço significativo no imaginário de uma juventude que busca desesperadamente por expressão da individualidade.
Em um mundo dominado pelo fast fashion, em que a urgência por novidades sobrepõe a qualidade, essa tendência oferece um contraponto: aplicações artesanais, modelagens diferentes e paletas de cores traduzindo narrativas culturais que parecem ter sido apagadas pelo tempo, que agora retornam como forma de homenagem.
Para a pesquisadora e historiadora de moda e arte Giselle Padoin, a influência no comportamento social está intrinsecamente relacionada ao contexto político: “A moda é a representação da sociedade e muda todo o tempo. Tudo que acontece reflete na moda.”
A artista e curadora apresentou em 2023 a coleção “60’s Forever – Moda, Arte e Comportamento”, na qual incorporou elementos como tecidos naturais e bordados minuciosos feitos na França. Inspirada por um dos momentos mais revolucionários da história da moda no Brasil, a coleção foi um desdobramento de sua exposição “A Arte da Moda – Histórias Criativas”, realizada no Farol Santander, em São Paulo, em 2021.
“Os anos 60 foram anos muito importantes mundialmente falando. Muitas mudanças culturais e artísticas ocorreram, além de revoluções. Aqui no Brasil, tivemos a primeira aproximação da arte com a moda, como na iniciativa da Rhodia”, conta Giselle. Algumas peças dessa antiga marca de moda brasileira que faziam parte da coleção “60’s Forever” de Padoin, estão expostas no Museu de Arte de São Paulo (Masp).
O trabalho detalhista de criação de bordados para cinco peças da coletânea foi uma parceria com o ateliê francês Maison Lesage, que colabora com a Chanel. Fruto de um profundo desenvolvimento colaborativo, a produção levou mais de um ano para ser finalizada. “Foi um processo longo, mas gratificante”, explica Giselle, que considera a experiência um reflexo da conexão entre arte e moda.
Assim como na década de 60, o escapismo surge como resposta aos tempos caóticos, marcados por guerras e inovações tecnológicas. A produção desenfreada e suas consequências irreparáveis geram uma mudança efetiva nas práticas e hábitos sociais. Segundo a pesquisadora, “o aumento na busca por peças second hand já é um sinal de que existe uma consciência geral de que não se pode continuar nessa produção desmedida”.
Essa nova forma de apreciar a arte e a moda também reflete no crescimento do interesse e respeito ao setor. Neste ano, a busca por vagas no bacharelado em Artes Visuais da UFRGS apresentou a maior taxa de crescimento entre os cursos de ensino superior. Com 65,9% de aumento na última edição do vestibular, o dado reforça uma tendência de valorização da criatividade e da produção artística.
Peças exclusivas e detalhadas, que poderão ser passadas de geração para geração, como os kimonos com particularidades invisíveis ao olhar externo, exemplificam o cuidado que Giselle acredita ser essencial para o futuro da moda. “Gosto de trabalhar o interno da peça. Por exemplo, um determinado kimono com uma aplicação por dentro, mas só a pessoa que tem aquela peça sabe que isso está lá. Esses detalhes trazem afetividade e agregam valor”, comenta.
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O retorno às décadas de 60 e 70 sugere uma reconexão com valores duráveis, que vão muito além da estética. Para Giselle, a qualidade da produção é imprescindível.
“O caminho é esse: cada vez mais qualidade na escolha dos tecidos e dos elementos utilizados nas peças, seja bordado, seja uma aplicação, seja uma pintura de um artista”, conclui. Afinal, autenticidade e qualidade nunca saem de moda.
A nova coleção da artista está exposta na sede da Design Week, localizada no Pontal Shopping, em Porto Alegre. O espaço, que tem direção da curadora Camila Farina, é aberto ao público.
*Sob supervisão de Camila Souza
