Enquanto o mundo debate o futuro da moda entre algoritmos e coleções de fast fashion, um seleto grupo de grifes em Paris respira arte pura. Longe de ditar tendências para as prateleiras, a alta-costura transforma manequins em esculturas vivas e tecidos em narrativas filosóficas.
De acordo com a especialista em moda e arquitetura Paula Bragagnolo, fundadora e diretora criativa da PGB Inteligência, esse é o território onde a criatividade "vai à loucura" – e os desfiles de Schiaparelli, Dior, Chanel e Giambattista Valli comprovam.
“A alta-costura não é um termômetro de tendências comerciais, mas do espírito do tempo. Aqui, os estilistas escrevem histórias com linhas e volumes, como se cada coleção fosse um capítulo de um livro de arte”, analisa.
Schiaparelli e o surrealismo idílico
A Schiaparelli abriu a semana com uma ode ao surrealismo, marca registrada da grife. As cinturas marcadíssimas e os quadris destacados trouxeram um jogo de proporções que remetia ao passado, mas com um twist contemporâneo. “Foi como assistir a uma exposição de arte”, comenta.
O desfile também revisitou silhuetas dos anos 60, 70 e 80, evocando um ar nostálgico. Paula destaca um vestido de fitas de tule que roubou a cena: “Era ao mesmo tempo fluido e estruturado, quase como uma ilusão visual.” Essa justaposição de tempos e formas é característica da maison, que sempre aposta na experimentação.
Dior e a dança dos tecidos
A Dior, por sua vez, mergulhou em um romantismo quase etéreo. Saindo de sua habitual austeridade, a marca apresentou crinolinas – saias armadas que marcaram o foco nos quadris –, transparências delicadas e babados que criavam volumes leves.
“Dior brincou com texturas de forma magistral”, diz Paula. “Os materiais usados eram quase contraditórios: tinham uma presença marcante, mas não pesavam visualmente.” As cores off-white, bege e rosé, clássicas da marca, reforçaram essa atmosfera de delicadeza.
Giambattista Valli: volumes e um toque marroquino
O desfile de Giambattista Valli foi uma declaração de amor ao Oriente Médio, refletindo uma inspiração pessoal do designer. Babados volumosos e tecidos esvoaçantes criaram uma sensação de movimento constante.
“É como se o Valli tivesse moldado o vento”, observa Paula. A leveza das peças contrastava com a grandiosidade dos volumes, resultando em looks que pareciam prontos para flutuar. A coleção também dialogou diretamente com o público asiático e do Oriente Médio, uma força crescente no consumo de alta-costura.
Chanel e a leveza da juventude
Encerrando o ciclo das grandes maisons, Chanel surpreendeu com um desfile vibrante, fugindo do tradicional. Sob nova direção criativa, a marca trouxe um frescor juvenil com cores mais vivas e uma abordagem menos rígida aos clássicos tweeds.
“Foi um dos desfiles mais elogiados da Chanel em anos”, conta. Babados e tons pastel se uniram a elementos mais ousados, criando uma coleção que parecia celebrar a liberdade. “Mesmo mantendo o DNA da marca, a Chanel conseguiu se reinventar.”
Apesar do romantismo e da leveza que dominaram os desfiles, Paula destaca que a alta-costura também reflete, de forma indireta, o momento atual. “É quase uma resposta ao peso político e social que vivemos hoje. A moda, aqui, busca oferecer uma visão idílica, um suspiro de alívio”, completa.
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Nesta quinta-feira, 30, os desfiles das casas convidadas marcam o encerramento da programação oficial da Semana de Alta-Costura. No entanto, ainda hoje, 29, algumas das casas mais icônicas, como Valentino e Jean Paul Gaultier, realizam suas aguardadas apresentações em Paris.
Para assistir aos desfiles ao vivo, basta acessar o site ou canal oficial no YouTube de cada marca. Já a programação completa do evento pode ser conferida no site da Federação de Alta Costura e Moda.
