Depois de uma longa dança das cadeiras, chega a hora de acompanhar as estreias de grandes nomes da moda em suas novas casas. Há quase um ano, o mercado de luxo vive uma revolução que envolve a redefinição de estratégias, novos rumos e mudanças entre os cargos de direção criativa.
Há quem enxergue esse movimento como sintoma de crise. Para Paula Bragagnolo, fundadora e diretora criativa da PGB Inteligência, a exaustão do consumidor pode, na verdade, inaugurar um novo ritmo para a moda. Em vez dos desfiles performáticos, repletos de conceitos artísticos e peças meticulosamente elaboradas, a ideia do “everyday closet” promete dominar as passarelas nas próximas semanas.
O conceito, traduzido como “guarda-roupa do dia a dia”, aponta para a busca da mulher moderna por roupas funcionais, que acompanhem a rotina sem abrir mão do estilo.
Seguindo uma pegada mais comercial do que as coleções anteriores, Paula aponta que “estamos exaustos de coisas muito mirabolantes para se adaptar o tempo inteiro, então voltamos a ver até cortes mais tradicionais. No próprio styling dos desfiles, ao invés de ser aquela coisa super domada, super meticulosa meticulosamente calculada, tudo monocromático, veremos uma mistura maior de coisas, porque as pessoas se vestem assim.”
Ela afirma que a maior tendência da temporada é justamente esse visual mais leve, expressionista e até “desarrumado”.
✨ Previsão e análise de tendências
Com a rotina como fio condutor, entram em cena os elementos orgânicos e naturais: materiais, estampas e caimentos que trazem frescor para os visuais.
A pesquisadora e especialista em negócios de moda Symone Rech destaca o “refresh” como uma das três grandes temáticas desta temporada. Segundo ela, trata-se de uma resposta ao impacto de fatores globais como crise climática, hiperconectividade e a ansiedade coletiva diante do futuro incerto. Ainda assim, existe uma demanda intensa por autenticidade e por marcas que transmitam mais realidade.
Esse desejo se traduz na “estética da sobrevivência”, que tem a fluidez como núcleo. “A fluidez vem justamente como uma resposta ao cansaço da estrutura, da rigidez social e desse excesso de estímulos que o consumidor tem recebido”, explica.
Tecidos como organza, tule e malhas leves incorporam esse estilo, assim como cartelas de cores em perolados e lavanda. Os pijamas casuais, por exemplo, despontam como destaque.
O segundo eixo apontado pela especialista é a regeneração, que reconecta a moda aos ciclos naturais. Aqui, tecidos como linho e cânhamo se tornam protagonistas, ao lado de estampas inspiradas em plantas e texturas orgânicas, em tons botânicos e terrosos. A filosofia é clara: “menos consumo, mais conexão”.
O artesanato também segue em destaque, mas agora em uma versão mais expressiva. Bordados (em sua maioria eletrônicos), crochês e tramas manuais retornam com estética maximalista, romântica e vibrante com referências do “romantismo punk” e doses de rebeldia poética. Aqui, os florais dramáticos ganham espaço junto aos tons de vermelho, dourado e, sobretudo, cores vívidas.
✨ O resultado da dança das cadeiras
Após uma maratona de mudanças nos comandos criativos, as estreias das grandes maisons carregam altas expectativas. O novo da moda aposta na identidade e conexão, as marcas sentem de perto o impacto dessa transformação no cenário.
Paula Bragagnolo aponta o conceito de “consumidor curador”, que diante da saturação de estímulos, produtos e narrativas, passa a selecionar com mais consciência aquilo que realmente importa. E o movimento se reflete diretamente nas coleções prestes a estrear.
Na Gucci, por exemplo, a chegada de Demna (ex-Balenciaga) desperta especulações sobre o futuro criativo da marca. Já Matthieu Blazy e JW Anderson assumem casas tradicionalíssimas — Chanel e Dior, respectivamente — ainda que levem consigo uma bagagem ligada ao streetwear.
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Nesse cenário, o diretor criativo ganha também o status de assinatura autoral. Se antes esses nomes circulavam apenas em nichos restritos do mercado, hoje tornam-se protagonistas do debate: o público reconhece suas marcas visuais, comenta campanhas e reconhece facilmente seus símbolos estilísticos.
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Segundo Paula, essa visibilidade reforça não apenas a identidade das maisons, mas também cria peças-ícone, capazes de carregar o peso de toda uma era criativa, como capítulos colecionáveis da história da moda.
Para os trendsetters, atentos a cada detalhe, essa temporada promete um respiro em meio ao excesso: coleções que já nascem raras, tanto pela singularidade quanto pela expectativa que as cerca.
*Sob supervisão de Mauren Xavier
