Depois de mais de 230 desfiles internacionais entre as quatro principais capitais da moda – Nova York, Londres, Milão e Paris –, a inovação ainda parece ser uma questão em aberto para o público. Em meio a uma overdose de tendências impulsionadas pela hiperconectividade, os fashionistas se perguntam: por que a moda está tão igual?
O questionamento sobre autenticidade não se restringe aos desfiles. Segundo a consultora e jornalista Thais Farage, a moda ainda funciona melhor enquanto indústria de ideias do que quando se reduz a uma indústria de produção em massa. No entanto, a repetição exaustiva de fórmulas bem-sucedidas sugere um mercado cada vez mais engessado pela previsibilidade e pelo lucro imediato.
Não à toa, a demanda por artigos de luxo tem caído continuamente. De acordo com o relatório da Bain & Company e Altagamma, 50 milhões de consumidores deixaram de comprar peças de grifes como Louis Vuitton e Gucci nos últimos dois anos. Esse enfraquecimento do setor também se reflete nas mudanças em direções criativas de gigantes como a Chanel.
Essa crise é uma consequência do esgotamento da indústria devido a saturação de tendências. Segundo a especialista em negócios de moda Symone Rech, se o cenário atual fosse favorável, dificilmente essa “dança das cadeiras” no comando das marcas aconteceria com tamanha periodicidade. Logo, a idealização de uma nova perspectiva torna-se indispensável aos pensadores de moda.
Olhar por outro ângulo
Historicamente, como uma forma de respiro, marcas conseguiram ressignificar elementos culturais marginalizados em suas identidades. O punk londrino, por exemplo, foi absorvido pelo mainstream, assim como o funk brasileiro, que passou de símbolo de resistência periférica para uma referência de mercado.
Hoje, a descentralização do poder e da influência, impulsionada pelas redes sociais, mudou a relação com esse universo. Ver-se representado em espaços antes inimagináveis pode impactar aspirações, criando um desejo de pertencimento.
No entanto, o acesso permanece desigual. Plataformas de ultra-fast fashion oferecem uma ilusão de inclusão, permitindo que mais pessoas consumam estéticas de luxo sem, de fato, “pertencerem”. Paradoxalmente, quando algo se populariza demais, a elite logo descarta, mantendo essa restrição atrelada à exclusividade e ao poder de compra.
Mas o que define, afinal, o que é moda? Mesmo fora do contexto do vestuário, o termo refere-se a um sistema de hábitos coletivos e a um conjunto de tendências. No próprio campo estatístico, “moda” é definida como o valor que ocorre com mais frequência em uma distribuição de dados. Essa perspectiva reforça a ideia de que a moda está intrinsecamente ligada à recorrência, mas, na prática, é exaltada pelo diferente.
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Para além da previsibilidade, o setor precisa de narrativas socialmente autênticas para se manter relevante. Como afirma o CEO da Italdesign, Antonio Casu, no estudo “O Futuro do Luxo”, o que consagra uma marca é sua cultura e a capacidade de contar histórias envolventes. Segundo ele, isso requer conhecimento, paixão e convicção.
Ainda que o meio digital e a inteligência artificial ampliem as possibilidades da moda, é preciso questionar seu impacto na criatividade. A repetição pode ser reflexo de um mercado acomodado ou apenas do olhar filtrado pelos algoritmos. Como aponta Symone Rech, talvez a moda não esteja se repetindo, mas sim sendo observada sempre pelo mesmo ângulo.
*Sob supervisão de Camila Souza
