A indústria da moda na era da repetição

Em meio a uma overdose de tendências impulsionadas pela hiperconectividade, os fashionistas se perguntam: por que a moda está tão igual?

Só nos últimos dois anos, 50 milhões de consumidores deixaram de comprar peças de grifes
Só nos últimos dois anos, 50 milhões de consumidores deixaram de comprar peças de grifes Foto : Bertrand Guay e Thomas Samson / AFP

Depois de mais de 230 desfiles internacionais entre as quatro principais capitais da moda – Nova York, Londres, Milão e Paris –, a inovação ainda parece ser uma questão em aberto para o público. Em meio a uma overdose de tendências impulsionadas pela hiperconectividade, os fashionistas se perguntam: por que a moda está tão igual?

O questionamento sobre autenticidade não se restringe aos desfiles. Segundo a consultora e jornalista Thais Farage, a moda ainda funciona melhor enquanto indústria de ideias do que quando se reduz a uma indústria de produção em massa. No entanto, a repetição exaustiva de fórmulas bem-sucedidas sugere um mercado cada vez mais engessado pela previsibilidade e pelo lucro imediato.

Não à toa, a demanda por artigos de luxo tem caído continuamente. De acordo com o relatório da Bain & Company e Altagamma, 50 milhões de consumidores deixaram de comprar peças de grifes como Louis Vuitton e Gucci nos últimos dois anos. Esse enfraquecimento do setor também se reflete nas mudanças em direções criativas de gigantes como a Chanel.

Essa crise é uma consequência do esgotamento da indústria devido a saturação de tendências. Segundo a especialista em negócios de moda Symone Rech, se o cenário atual fosse favorável, dificilmente essa “dança das cadeiras” no comando das marcas aconteceria com tamanha periodicidade. Logo, a idealização de uma nova perspectiva torna-se indispensável aos pensadores de moda.

Olhar por outro ângulo

Historicamente, como uma forma de respiro, marcas conseguiram ressignificar elementos culturais marginalizados em suas identidades. O punk londrino, por exemplo, foi absorvido pelo mainstream, assim como o funk brasileiro, que passou de símbolo de resistência periférica para uma referência de mercado.

Hoje, a descentralização do poder e da influência, impulsionada pelas redes sociais, mudou a relação com esse universo. Ver-se representado em espaços antes inimagináveis pode impactar aspirações, criando um desejo de pertencimento.

No entanto, o acesso permanece desigual. Plataformas de ultra-fast fashion oferecem uma ilusão de inclusão, permitindo que mais pessoas consumam estéticas de luxo sem, de fato, “pertencerem”. Paradoxalmente, quando algo se populariza demais, a elite logo descarta, mantendo essa restrição atrelada à exclusividade e ao poder de compra.

Mas o que define, afinal, o que é moda? Mesmo fora do contexto do vestuário, o termo refere-se a um sistema de hábitos coletivos e a um conjunto de tendências. No próprio campo estatístico, “moda” é definida como o valor que ocorre com mais frequência em uma distribuição de dados. Essa perspectiva reforça a ideia de que a moda está intrinsecamente ligada à recorrência, mas, na prática, é exaltada pelo diferente.

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Para além da previsibilidade, o setor precisa de narrativas socialmente autênticas para se manter relevante. Como afirma o CEO da Italdesign, Antonio Casu, no estudo “O Futuro do Luxo”, o que consagra uma marca é sua cultura e a capacidade de contar histórias envolventes. Segundo ele, isso requer conhecimento, paixão e convicção.

Ainda que o meio digital e a inteligência artificial ampliem as possibilidades da moda, é preciso questionar seu impacto na criatividade. A repetição pode ser reflexo de um mercado acomodado ou apenas do olhar filtrado pelos algoritmos. Como aponta Symone Rech, talvez a moda não esteja se repetindo, mas sim sendo observada sempre pelo mesmo ângulo.

*Sob supervisão de Camila Souza