Não importa a década, a moda ou a popularidade dos debates sobre aceitação: o corpo feminino segue sob julgamento. Magra demais, gorda demais, forte demais, frágil demais — nunca suficiente. O padrão de beleza muda, mas a pressão permanece. A busca por esse ideal imagético se reflete nos números: de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), em 2023, o Brasil realizou 3,3 milhões de procedimentos estéticos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que lidera o ranking global em cirurgias plásticas.
O verão chega como um lembrete dessa cobrança. É a temporada das dietas relâmpago, dos procedimentos milagrosos e do bombardeamento de campanhas publicitárias que reafirmam, ano após ano, a ideia de que existe um único tipo de corpo aceitável para aproveitar a estação.
A exposição contínua a esses padrões afeta diretamente a saúde mental das mulheres. A psicóloga Ana Luisa D’Andréa, especialista em autoestima e transtornos alimentares, destaca que a maioria de suas pacientes apresentam diversas queixas sobre a busca interminável por aceitação. Para ela, a saída está em ressignificar a autoestima para além da aparência. “A gente precisa de uma autoimagem mais diversificada, que tenha outros repertórios.” Enxergar a beleza na pluralidade corporal e se reconhecer em características que não as unicamente visuais são passos fundamentais para quebrar esse ciclo.
As redes sociais amplificam essa pressão com imagens manipuladas e filtros “embelezadores”. “Hoje, a gente tem uma mistura do que é real e do que não é, ainda mais com a inteligência artificial”, explica. O resultado é um cenário de comparação desonesta, no qual muitas mulheres medem sua própria aparência com base em um ideal inalcançável.
Diante dessa realidade, estratégias de moda surgem como um mecanismo para amenizar a insegurança. Muitas recorrem a truques para disfarçar ou cobrir partes do corpo até se sentirem confortáveis para abandoná-los. Aos poucos, peças que antes eram usadas como escudo passam a ganhar uma nova interpretação, permitindo uma relação pessoal mais livre.
A influenciadora e modelo gaúcha Jéssica Lopes conhece bem esse percurso. Vivendo suas próprias questões, ela criou uma comunidade online para compartilhar inseguranças e dificuldades, transformando seu perfil em um espaço de acolhimento. “A jornada de construção da autoestima é individual, algo que só você pode fazer por si mesma, mas ela não precisa ser solitária”, reflete.
O suporte emocional e psicológico tem um papel fundamental no processo. A rede de apoio ajuda a questionar narrativas limitantes e relembrar que não existe corpo inadequado para viver plenamente. Da mesma forma, o acompanhamento profissional é essencial para auxiliar na desconstrução de crenças prejudiciais.
Muitas mulheres passam anos reféns das dietas restritivas, apostando em soluções imediatistas, mas o resultado é, quase sempre, a frustração. O emagrecimento rápido raramente é sustentável e, consequentemente, reforça a ideia de que a alimentação deve ser vista apenas como um método para modificar a aparência. No entanto, a comida vai muito além disso: tem um papel afetivo, social e emocional e deve fazer parte da rotina de forma equilibrada, sem culpa ou punição.
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Hoje, para Jéssica, a única preocupação antes de uma viagem à praia é escolher os melhores looks. Como uma boa blogueira de moda, ela planeja combinações que refletem seu estilo, sem que a opinião alheia seja um fator determinante. “Ir à praia ou à piscina era uma questão, assim como o julgamento e o olhar dos outros. Aos poucos, fui me libertando e entendendo que é muito mais gostoso viver a vida assim”, conta
Aceitação não significa gostar do próprio corpo o tempo todo, mas também não precisa ser uma luta interna diária. A relação com a autoimagem muda aos poucos, à medida que surgem novas formas de se enxergar. Em um cenário onde a pressão estética ainda grita, cultivar um olhar mais gentil sobre si pode ser o caminho para levar a vida com mais leveza.
*Sob supervisão de Camila Souza
