O maximalismo, o trabalho artesanal e a valorização da identidade brasileira marcaram a 61ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), realizada entre 13 e 18 de outubro, em São Paulo. Em meio às comemorações dos 30 anos do evento, as passarelas apresentaram bordados, crochês, franjas, sobreposições e acessórios de grandes proporções. Entre as apostas para 2027 estão o jeans, as bolsas volumosas e os calçados de formatos inusitados.
A análise é de Marina Käfer, formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Stylist, consultora de imagem e colunista do Bella Mais, ela acompanhou o evento e destacou o protagonismo das técnicas manuais, a criatividade das marcas brasileiras e a retomada de uma moda visualmente mais elaborada.
Para Marina, a edição confirmou um movimento que já havia identificado nas semanas de moda internacionais. Em setembro, em sua coluna no Bella Mais, a especialista havia apontado o avanço do maximalismo nas passarelas de Nova York, Londres e Milão, com mais cores, texturas e acessórios. Agora, a moda brasileira reforça essa direção, mas acrescenta uma característica própria: a valorização das referências culturais e dos saberes artesanais.
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Hisha e Ammi levam bordados e crochê às passarelas
Entre os destaques da edição estão as estreias de Hisha e Ammi no calendário da SPFW. Fundadas em 2018, as duas marcas têm o trabalho manual como parte de sua identidade e apresentaram coleções marcadas pela riqueza de detalhes.
Criada pela estilista Giovanna Resende, a Hisha é uma marca mineira que trabalha com uma rede de aproximadamente 200 bordadeiras. A coleção levou à passarela referências das paisagens do interior de Minas Gerais, exploradas em tons terrosos, bordados, pedras naturais e acessórios de grandes proporções. As roupas também apresentaram volumes, transparências e elementos associados à estética boho.
Segundo Marina, a Hisha representa a força da produção manual brasileira, valorizando técnicas que envolvem uma cadeia de profissionais e preservam conhecimentos transmitidos entre gerações. A Ammi, fundada por Amanda Felisberto, também chamou a atenção pelo trabalho artesanal. O crochê, principal característica da marca, apareceu em criações que exploraram formas da natureza, como conchas, ondas, folhas e raízes. Bordados, babados, franjas e diferentes estruturas ajudaram a construir peças que combinam técnicas tradicionais e propostas contemporâneas.
Na avaliação de Marina, a Ammi apresenta o crochê em uma linguagem sofisticada, afastando a técnica da associação exclusiva com peças tradicionais e mostrando seu potencial para o mercado de moda premium. As duas estreias reforçaram uma das principais características observadas pela especialista na edição: a valorização do feito à mão como elemento de identidade e diferenciação na moda brasileira.
Foz transforma memória e migração em moda
A relação entre moda e memória ganhou destaque no desfile da Foz, marca do estilista Antônio Castro. Intitulada Expresso Maravilha, a coleção abordou as viagens de migrantes brasileiros e o desejo de retorno às origens, recuperando referências de experiências pessoais e da cultura popular. A apresentação buscou inspiração em objetos associados ao ambiente doméstico, como cortinas, colchas, capas de sofá e almofadas. Essas referências foram reinterpretadas em peças com bordados, aplicações, patchwork e diferentes técnicas artesanais.
Para os convidados, a experiência começou antes da entrada dos modelos. Na primeira fila, foram distribuídos livros selecionados em sebos. Marina também destacou o gesto de receber o público com uma rosa, elemento que, em sua avaliação, acrescentou delicadeza e sensibilidade à narrativa.
A coleção incorporou técnicas como a renda irlandesa produzida em Divina Pastora, em Sergipe, e bordados desenvolvidos em Timbaúba dos Batistas, no Rio Grande do Norte. O trabalho evidenciou como a moda pode estabelecer conexões entre criação contemporânea, memória cultural e conhecimentos artesanais de diferentes regiões brasileiras.
Santa Resistência homenageia Mangueira e Cartola
A cultura brasileira também esteve presente na coleção da Santa Resistência, criada pela estilista Mônica Sampaio. A marca buscou inspiração na Estação Primeira de Mangueira e no universo musical ligado à escola de samba, especialmente na trajetória de Cartola.
A apresentação reuniu elementos da alfaiataria, referências do streetwear e trabalhos realizados por diferentes artesãos. Bordados com trechos de sambas, estampas e intervenções manuais ajudaram a construir uma coleção que aproximou moda, música e memória.
Entre os detalhes destacados por Marina está uma estampa floral inspirada em referências do casamento de Cartola. A colunista chamou a atenção para a delicadeza de transformar elementos de uma história pessoal em linguagem visual para a passarela. O desfile também apresentou estampas desenvolvidas a partir de aquarelas com personagens importantes do samba, como Alcione, Mussum e Nelson Cavaquinho, reforçando a ligação da coleção com a cultura popular brasileira.
Uó mostra que a moda também pode ser reinventada
A sustentabilidade apareceu entre os destaques apontados por Marina no desfile da Uó Upcycling, projeto de Marcelo Sommer e Luiz Monteiro que utiliza roupas e materiais já existentes na criação de novas peças.
O conceito de upcycling consiste em transformar materiais e produtos sem necessariamente submetê-los aos processos convencionais de reciclagem. Na moda, essa prática permite reinterpretar roupas por meio de intervenções, combinações e novas construções.
Para Marina, a apresentação mostrou que a inovação não depende exclusivamente da produção de novas peças. A criatividade também pode estar na transformação de roupas que já circulam no mercado, ampliando suas possibilidades de uso. A proposta aproxima a moda das práticas de reutilização, do universo dos brechós e da valorização de peças únicas, demonstrando como diferentes técnicas de reconstrução podem resultar em criações contemporâneas.
Amir Slama revisita desfile histórico da Rosa Chá
A memória da moda também orientou a apresentação de Amir Slama. O estilista revisitou uma coleção apresentada em 2000, quando a Rosa Chá estreou na Semana de Moda de Nova York, contribuindo para ampliar a presença da moda praia brasileira no circuito internacional.
Na SPFW, a releitura trouxe novas interpretações de peças que marcaram aquele período, entre elas o maiô que criava a ilusão de nudez, originalmente apresentado por Adriana Lima. A proposta atualizou elementos da coleção com recortes assimétricos, transparências, franjas, pedrarias e cores intensas. Para Marina, o desfile esteve entre os momentos importantes da edição por mostrar como referências históricas podem ser reinterpretadas sem perder a identidade criativa de uma marca.
Apartamento 03 encerra SPFW com bordados e diversidade etária
O encerramento da edição ficou por conta da Apartamento 03, marca do estilista Luiz Claudio Silva. A apresentação reuniu bordados, sobreposições, camadas e tecidos do próprio acervo, explorando a relação entre criação, memória e passagem do tempo.
Além do trabalho manual, o desfile trouxe uma discussão sobre envelhecimento e representatividade. A marca convidou modelos veteranas para a passarela, aproximando a apresentação da diversidade de idades de seu público consumidor.
A escolha acrescentou outra dimensão ao encerramento da SPFW, ao mostrar que o debate sobre inclusão na moda também envolve a presença de mulheres maduras nas passarelas. Na avaliação de Marina, os bordados e as sobreposições da Apartamento 03 dialogaram com o maximalismo observado ao longo da edição, encerrando a semana com uma proposta que reuniu técnicas tradicionais e construções contemporâneas.
Maximalismo e jeans: o que apostar para 2027?
Depois de acompanhar os desfiles, Marina Käfer aponta algumas tendências que devem ganhar espaço nas produções de 2027. O maximalismo aparece entre as principais apostas, com a combinação de diferentes texturas, volumes, bordados, franjas, babados e acessórios marcantes.
O crochê também mantém sua relevância, mas surge em propostas que vão além das peças tradicionais. Misturado a bordados, pedrarias e diferentes materiais, o trabalho manual assume uma linguagem contemporânea e pode aparecer tanto em roupas quanto em acessórios.
Outro destaque é o jeans. Segundo Marina, o material teve presença expressiva nas apresentações e deve continuar entre os protagonistas da estação, especialmente em propostas que explorem novas modelagens, volumes e acabamentos.
Nos acessórios, a aposta está nas bolsas grandes e nos chamados sapatos estranhos, expressão utilizada na moda para identificar modelos de formatos inusitados, proporções exageradas ou construções que fogem dos padrões convencionais. A mistura de acessórios também ganha força. Em vez de produções discretas, a tendência favorece composições com diferentes elementos visuais, permitindo que cada pessoa adapte as referências das passarelas ao próprio estilo.
