As doenças cardiovasculares já são a maior causa de mortes entre mulheres no Brasil e no mundo, superando até mesmo o câncer, segundo dados de instituições médicas. Entre as mulheres acima de 50 anos, a vulnerabilidade aumenta ainda mais devido à combinação de fatores tradicionais de risco, como hipertensão e colesterol alto, com mudanças hormonais e condições específicas, como diabetes gestacional e hipertensão na gravidez.
A médica Cristina Milagre, cardiologista e médica do esporte do Hcor, alerta que a chegada da menopausa contribui para esse aumento de risco, especialmente ao agravar o acúmulo de gordura corporal e elevar os níveis de colesterol. Destaca que, após os 50 anos, as doenças cardiovasculares em mulheres se manifestam predominantemente na forma de doença isquêmica do coração, como infarto, e doença cerebrovascular, como acidente vascular cerebral (AVC). "A partir da menopausa, notamos uma mudança marcante na prevalência e na gravidade das doenças cardíacas entre mulheres, que chegam a representar 56% da mortalidade feminina. Isso é um dado muito expressivo e que demanda atenção redobrada para a saúde cardíaca feminina", afirma a médica.
Além dos fatores tradicionais, as mulheres enfrentam sintomas diferenciados dos homens, o que pode retardar o diagnóstico. Enquanto os homens com doenças cardíacas frequentemente sentem dor intensa no peito, muitas mulheres experimentam sintomas que nem sempre parecem relacionados ao coração, como dor epigástrica, falta de ar, cansaço, e sensação de mal-estar. De acordo com Cristina, "esses sintomas atípicos, chamados de equivalentes anginosos, incluem náuseas, palpitações, dor cervical, dor na mandíbula e até uma sensação de indigestão". Como resultado, o diagnóstico e o tratamento das doenças cardíacas em mulheres muitas vezes são atrasados, o que pode ter consequências graves.
Outro fator que merece atenção é que as características das doenças coronárias nas mulheres podem ser diferentes das encontradas nos homens. "Em algumas mulheres, o infarto ocorre mesmo sem uma obstrução significativa das artérias, o que está relacionado a espasmos coronários — quando as artérias sofrem contrações — ou a uma disfunção endotelial, isto é, alterações na parede do vaso sanguíneo. Em casos raros, também há a possibilidade de dissecção espontânea da artéria coronária, uma condição grave que representa entre 1% e 4% dos casos de infarto. Em mulheres antes dos 50 anos, isso pode ocorrer em cerca de 25% a 35% dos casos e, após os 60 anos, em cerca de 25% das mulheres", explica a Dra. Cristina.
Outro ponto que merece destaque é a Síndrome de Takotsubo, também conhecida como Síndrome do Coração Partido, que é mais comum em mulheres após a menopausa. "A Takotsubo é uma condição na qual o infarto é desencadeado pelo estresse emocional e acomete até 90% das mulheres entre os 58 e 75 anos", detalha a cardiologista. O estresse emocional, que pode estar relacionado a perda, traumas ou outras situações intensas, gera uma resposta anômala do organismo que pode levar ao infarto sem bloqueio arterial, imitando um infarto comum em sintomas e em consequências.
Um alerta para as mulheres 50+
Além dos fatores de risco tradicionais — como hipertensão arterial, diabetes mellitus, sobrepeso, obesidade, sedentarismo, tabagismo e uma dieta inadequada —, as mulheres precisam lidar com condições exclusivas. Segundo Cristina, as mulheres são afetadas por uma série de fatores de risco não tradicionais, incluindo condições como parto prematuro, hipertensão durante a gestação, diabetes gestacional e menopausa precoce, que ocorre antes dos 40 anos. Doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide, também são mais prevalentes entre as mulheres e estão associadas a um risco cardiovascular elevado.
Há, ainda, o impacto de tratamentos que podem comprometer a saúde do coração. "A radioterapia e a quimioterapia, especialmente após o tratamento de câncer de mama, podem deixar o coração mais vulnerável. A depressão, a ansiedade e a síndrome de Burnout são fatores psicossociais que, embora não sejam específicos ao sexo feminino, afetam as mulheres com maior frequência e intensidade. Esses estados afetam a resposta hormonal do corpo e aumentam a propensão a problemas cardiovasculares", explica a cardiologista.
Importância de exames periódicos e acompanhamento
Embora não existam exames exclusivos para mulheres, certos exames cardíacos exigem uma interpretação diferenciada entre os gêneros. De acordo com a Cristina, o eletrocardiograma pode ter diferenças na interpretação entre homens e mulheres, e o teste ergométrico (teste de esforço) em mulheres tem maior probabilidade de resultar em falso-positivos. "A cintilografia miocárdica, exame que visualiza a circulação coronária, pode apresentar alterações na imagem em função da presença das mamas, o que também deve ser considerado", acrescenta a médica.
A orientação é que mulheres acima dos 50 anos realizem um acompanhamento cardíaco mais frequente, especialmente após a menopausa, para que alterações e riscos sejam identificados e tratados precocemente. "Com a chegada da menopausa, a queda dos níveis de estrogênio faz com que o colesterol aumente, além de dificultar a perda de peso e favorecer o ganho de massa gorda. A combinação desses fatores torna o acompanhamento médico essencial", alerta a cardiologista.
Prevenção e estilo de vida
Para reduzir o risco de doenças cardíacas, Cristina ressalta que o estilo de vida influencia neste aspecto. "Estima-se que até 50% das causas de doenças cardiovasculares estão ligadas ao estilo de vida. Assim, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, controlar o peso e o estresse são essenciais para a saúde do coração. Após a menopausa, as mulheres devem prestar ainda mais atenção a esses cuidados e realizar consultas periódicas com o cardiologista para um monitoramento detalhado", afirma.
Quanto à dieta, a cardiologista indica reduzir a ingestão de carboidratos e açúcares e aumentar o consumo de proteínas. "Uma dieta equilibrada e que evite o excesso de açúcares e carboidratos refinados é fundamental para evitar o ganho de peso e a resistência à insulina, que é uma condição comum nessa fase da vida", diz.
Suplementos e medicamentos na prevenção
Muitas mulheres acima dos 50 anos questionam a eficácia de suplementos e medicamentos na prevenção de doenças cardíacas. De acordo com a especialista, alguns medicamentos para o controle do colesterol podem ser indicados após essa idade. No entanto, ela adverte que o uso de ômega 3, por exemplo, é válido apenas para casos de triglicérides acima de 500 mg/dL, em conjunto com uma dieta adequada e a prática de exercícios físicos.
"Não há evidências científicas robustas de que a suplementação de vitaminas e minerais possa realmente prevenir doenças cardiovasculares, e a suplementação deve sempre ser individualizada conforme cada caso", esclarece.
O magnésio, no entanto, pode ser útil em casos de arritmia e hipertensão arterial, sendo considerado um complemento ao tratamento padrão. Já suplementos de proteína, como whey protein e creatina, podem ser benéficos para ajudar na construção de massa muscular, especialmente em mulheres que apresentam perda de massa magra devido à queda de estrogênio após a menopausa.
Tratamentos para mulheres com doenças cardíacas
Quando o tratamento se torna necessário, as mulheres acima dos 50 anos têm acesso a opções semelhantes às dos homens, incluindo angioplastia com stent e cirurgia de revascularização do miocárdio, conhecida como ponte de safena. "A decisão sobre a realização de procedimentos invasivos, como angioplastia e cirurgia cardíaca, deve considerar cada caso, avaliando fatores como gravidade da doença, idade, quadro clínico e a presença de outras condições", explica a médica.
Entre as mulheres que apresentam comorbidades, como diabetes ou problemas renais, o risco de complicações cirúrgicas aumenta. "Para mulheres com múltiplas lesões nas artérias coronárias e comprometimento da função cardíaca, a cirurgia pode ser a melhor opção, pois oferece maior segurança a longo prazo. No entanto, a decisão deve ser sempre baseada na avaliação de risco-benefício", completa
A menopausa e seu efeito no coração feminino
A chegada da menopausa marca uma série de mudanças hormonais que impactam diretamente a saúde do coração. Com a queda de estrogênio, os níveis de colesterol aumentam, o ganho de peso se torna mais difícil de combater, e há uma tendência à perda de massa muscular e óssea. "A perda de estrogênio também contribui para o aumento da pressão arterial e outros fatores de risco cardíaco", alerta a Dra. Cristina.
Terapias de reposição hormonal (TRH) podem aliviar alguns sintomas da menopausa, mas, segundo a especialista, não são indicadas para a prevenção de doenças cardiovasculares. "A terapia de reposição hormonal é recomendada apenas para mulheres com sintomas intensos da menopausa, e sempre após uma avaliação criteriosa. Não há comprovação de que a TRH seja capaz de prevenir problemas cardíacos", explica. A Sociedade Brasileirade Cardiologia também desencoraja o uso de hormônios bioidênticos manipulados, por falta de evidência científica.
Dicas para prevenir doenças cardíacas
Para mulheres acima de 50 anos, a recomendação é clara: mantenham-se ativas. "A menopausa não combina com sedentarismo! É preciso incluir treinos de força, como musculação e pilates, e atividades aeróbicas, como bicicleta, corrida e natação", recomenda a Dra. Cristina. Além disso, a alimentação deve ser balanceada, com o consumo moderado de álcool e a cessação do tabagismo para quem fuma.
A médica enfatiza ainda a importância do autocuidado, que inclui o bem-estar mental e físico, e o acompanhamento médico regular.
"O autocuidado vai além da estética; ele é fundamental para a saúde como um todo. Mente e corpo em equilíbrio promovem uma vida mais saudável e ajudam a evitar problemas cardiovasculares", conclui.
Para aquelas que desejam preservar a saúde do coração e vivem essa fase da vida, a orientação é buscar orientação médica antes de momentos de grande mudança hormonal, como gravidez e menopausa. Dessa forma, é possível realizar um planejamento preventivo e fortalecer o organismo para as demandas de cada fase.
Essa abordagem, que une prevenção, acompanhamento regular e estilo de vida saudável, é a melhor forma de garantir que, aos 50 anos e além, as mulheres possam viver com mais qualidade de vida e menor risco de doenças cardíacas, que são, hoje, uma das principais ameaças à saúde feminina no mundo.
