Ler algumas páginas de um livro, aprender uma habilidade, resolver um quebra-cabeça, conversar com amigos ou praticar uma atividade física. Ações aparentemente simples se transformam em exercícios para o cérebro para o manter ativo e preservar habilidades como memória, atenção, raciocínio e capacidade de tomar decisões ao longo do envelhecimento.
Celebrado em 22 de julho, o Dia Mundial do Cérebro chama a atenção para a importância de cuidar da saúde cerebral durante toda a vida. Em 2026, a campanha promovida pela Federação Mundial de Neurologia tem como tema “Saúde cerebral: acesso para todos” e reforça a necessidade de ampliar a prevenção, o diagnóstico precoce e o atendimento neurológico.
O debate ganha relevância diante do envelhecimento da população. Dados apresentados pela Organização Mundial da Saúde indicam que as doenças neurológicas afetam mais de 3,4 bilhões de pessoas e representam a principal causa de incapacidade no mundo.
No Brasil, cerca de 33 milhões de pessoas têm 60 anos ou mais. O Relatório Nacional sobre a Demência estima que aproximadamente 2,71 milhões de brasileiros nessa faixa etária convivam com algum tipo de demência. Mantido o ritmo atual, o número poderá ultrapassar 5,6 milhões até 2050.
Apesar do cenário preocupante, envelhecer não significa necessariamente apresentar perda importante de memória, deixar de aprender ou desenvolver demência. O cérebro mantém, ao longo da vida, a capacidade de criar e reorganizar conexões. Essa característica, conhecida como neuroplasticidade, permite que ele responda a novos estímulos e experiências.
Segundo o neurologista Tiago Garcia de Oliveira, especialista em Distúrbios do Movimento da MedSênior, manter a mente estimulada é tão importante quanto cuidar da saúde física.
“O cérebro precisa ser constantemente desafiado. Quanto mais variadas forem as atividades cognitivas realizadas ao longo da vida, maior tende a ser a reserva cognitiva, que funciona como um fator de proteção diante do envelhecimento e de algumas doenças neurodegenerativas”, explica.
A reserva cognitiva corresponde à capacidade do cérebro de desenvolver estratégias para enfrentar os efeitos do envelhecimento e compensar possíveis alterações. Ela é construída por meio de fatores como aprendizagem, interação social, atividade física, alimentação equilibrada, sono de qualidade e desafios intelectuais.
Cultive o hábito da leitura
Livros, jornais, revistas e outros conteúdos escritos estimulam áreas relacionadas à linguagem, à interpretação, à concentração e à memória. Não é necessário cumprir grandes metas de leitura. Reservar alguns minutos diariamente já representa um exercício importante.
Alternar gêneros, autores e temas também pode ampliar os estímulos. Um romance exige o acompanhamento de personagens e acontecimentos, enquanto uma reportagem ou um texto informativo mobiliza interpretação, análise e associação de informações.
Além de exercitar a mente, a leitura pode despertar curiosidade, incentivar novas conversas e abrir caminhos para outros aprendizados.
Nunca pare de aprender
Aprender um idioma, tocar um instrumento musical, desenvolver uma habilidade manual, usar uma nova tecnologia ou frequentar um curso são atividades que desafiam o cérebro.
A gerontóloga Thaís Bento, doutora em Neurologia pela Universidade de São Paulo e pesquisadora na área de estimulação cognitiva, ressalta que o cérebro responde especialmente bem às novidades.
“O cérebro precisa de novidades. Sempre que aprendemos algo diferente, estimulamos áreas responsáveis pelo raciocínio, pela memória e pela atenção. Esse processo fortalece as conexões entre os neurônios e contribui para manter a mente ativa ao longo dos anos”, afirma.
O aprendizado não precisa estar ligado a uma formação acadêmica. Cozinhar uma receita diferente, mudar o trajeto de uma caminhada ou aprender a utilizar um aplicativo também retira o cérebro do modo automático e exige novas respostas.
Exercite o raciocínio com jogos
Palavras cruzadas, sudoku, quebra-cabeças, jogos da memória, caça-palavras, xadrez, dama e bingo podem trabalhar atenção, concentração, raciocínio lógico e planejamento.
Os jogos são ainda mais interessantes quando apresentam níveis progressivos de dificuldade. Repetir sempre uma atividade já dominada tende a exigir menos esforço cognitivo. Por isso, variar os desafios é tão importante quanto manter a frequência.
Um estudo conduzido por pesquisadores da USP e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da universidade acompanhou 207 idosos saudáveis durante 24 meses. Parte dos participantes realizou um programa estruturado de estimulação cognitiva, com atividades destinadas à memória, à atenção, ao raciocínio e a outras funções.
Ao final do acompanhamento, o grupo que participou do programa apresentou melhora aproximada de 45% na memória, redução de 60% nas queixas cognitivas e diminuição de 29% dos sintomas depressivos. Também foram observados avanços em funções executivas, como planejamento, organização e tomada de decisões. Os resultados foram publicados na revista científica *International Psychogeriatrics*.
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Mantenha a vida social ativa e exercite a criatividade
Conversar, participar de grupos, encontrar amigos, frequentar oficinas ou realizar atividades coletivas movimenta diversas funções cerebrais ao mesmo tempo. Durante uma conversa, por exemplo, o cérebro precisa ouvir, interpretar, recordar informações, organizar ideias e elaborar respostas.
A convivência também ajuda a combater o isolamento social, condição associada a prejuízos para a saúde emocional e cognitiva.
Atividades criativas, como pintura, música, dança, fotografia, escrita, artesanato e trabalhos manuais, acrescentam novos estímulos. Elas exigem coordenação, planejamento, atenção e tomada de decisões, além de favorecerem a expressão e o bem-estar.
Segundo a diretora pedagógica do Supera Estimulação Cognitiva, Patrícia Lessa, o cuidado com a cognição precisa deixar de ser associado apenas ao tratamento de doenças.
“Precisamos deixar de falar apenas sobre tratamento e passar a discutir prevenção, promoção da saúde cerebral e cuidado ao longo de toda a vida”, defende.
Cuide também da saúde do corpo
A saúde do cérebro está diretamente relacionada à saúde do organismo. Atividade física regular, alimentação equilibrada e sono de qualidade contribuem para o funcionamento cerebral.
Também é fundamental acompanhar e controlar condições como hipertensão, diabetes e colesterol elevado, que podem comprometer a circulação sanguínea e aumentar o risco de alterações neurológicas.
Não existe, porém, uma atividade isolada capaz de evitar o declínio cognitivo ou garantir que uma pessoa não desenvolverá demência. O benefício está na combinação de diferentes hábitos mantidos ao longo do tempo.
“O que faz diferença é a combinação de hábitos saudáveis. O cérebro responde muito bem quando é estimulado continuamente e associado a uma rotina fisicamente ativa e socialmente integrada”, afirma Tiago Garcia de Oliveira.
O neurologista cita como exemplo o estudo LatAm-Fingers, publicado em 2026 na revista científica *The Lancet*, que identificou benefícios de uma intervenção multidimensional para preservar a cognição de idosos com maior risco de demência.
Para Thaís Bento, os cuidados não devem começar somente quando surgirem esquecimentos frequentes ou dificuldades para realizar tarefas cotidianas.
“Não é preciso esperar que apareçam falhas importantes de memória para começar a cuidar do cérebro. Quanto mais cedo esse estímulo fizer parte da rotina, maiores são as chances de preservar as funções cognitivas durante o envelhecimento”, conclui.
Preservar a saúde cerebral, portanto, não depende apenas de viver mais anos. Significa manter a capacidade de aprender, decidir, criar, cultivar relacionamentos e participar ativamente da própria vida.
