Transição de carreira aos 50: mulheres que encontraram um novo propósito

Conheça as histórias de Suzana, Adriane e Sionara que resolveram investir em novos desafios profissionais aos 50 anos

Suzana Neves, com formação em marketing, migrou para a gastronomia
Suzana Neves, com formação em marketing, migrou para a gastronomia Foto : Arquivo Pessoal / Divulgação / CP

Chegar aos 50 anos pode ser o início de um novo capítulo profissional para muitas mulheres. Suzana Maria da Costa Neves, 63, Sionara Beatriz Farias Correa, 49, e Adriane Borges, 55, são exemplos de como a maturidade oferece a oportunidade de se reinventar. Cada uma delas, com trajetórias diferentes, enfrentou o desafio de transitar de carreiras consolidadas para novos horizontes, unidas por um propósito comum: buscar mais equilíbrio, realização pessoal e impactar positivamente a vida de outras pessoas.

Suzana, com formação em marketing, migrou para a gastronomia; Sionara, após 15 anos no setor de saúde do idoso, agora foca em mentorias para mulheres; e Adriane, que sempre trabalhou com planejamento de projetos, está a caminho de se tornar psicóloga. Embora suas transições envolvam áreas distintas, todas elas compartilham um desejo profundo de explorar novos desafios e alinhar suas carreiras a um propósito maior.

Suzana, Sionara e Adriane não fizeram apenas uma mudança de trabalho; elas buscam algo mais significativo para si mesmas e para as pessoas ao seu redor. Suzana viu na gastronomia uma forma de se conectar com as pessoas de maneira prática e prazerosa, utilizando a experiência adquirida ao longo dos anos para criar experiências através da comida. Sionara, ao transitar para as mentorias, decidiu que seu conhecimento sobre envelhecimento poderia ajudar outras mulheres a encontrarem qualidade de vida e bem-estar. Já Adriane, motivada por um desejo antigo de trabalhar com psicologia, almeja ajudar outras pessoas a compreenderem suas forças internas e a encontrarem equilíbrio em suas vidas.

Sionara Correa agora foca em mentorias para mulheres | Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação / CP

Além do propósito, o desafio da transição uniu as histórias dessas três mulheres. Suzana enfrentou o preconceito de pessoas que não compreendiam como alguém com sua trajetória acadêmica e profissional poderia escolher um caminho aparentemente mais simples, como a culinária. Já Sionara se deparou com o desafio de ser a protagonista de um novo empreendimento, deixando para trás um negócio já consolidado. Adriane, por sua vez, precisou se adaptar a um ambiente acadêmico diferente do que conhecia e superar o impacto da pandemia, que paralisou sua carreira anterior.

Essas três mulheres são o retrato da pesquisa realizada pela Maturi, plataforma especializada no mercado de trabalho 50+, em parceria com a NOZ Inteligência: 70% das mulheres maduras estão em transição de carreira. A principal motivação? O etarismo no mercado de trabalho e o desejo de equilibrar vida pessoal e profissional.

O estudo (clique aqui para ler mais sobre a pesquisa), que ouviu mais de 2 mil pessoas entre 43 e 82 anos, mostra que a flexibilidade é uma prioridade para 55% das mulheres, que optam por atuar como consultoras, autônomas ou freelancers. Além disso, 38% manifestam interesse em empreender, vendo no próprio negócio uma forma de manter-se ativa e superar as barreiras impostas pela idade.

A pesquisa também indica a busca por mais autonomia e controle sobre horários e locais de trabalho. Muitas dessas mulheres fazem parte da "geração sanduíche", cuidando simultaneamente de filhos e pais idosos, o que torna a flexibilidade um fator essencial.

Para Mórris Litvak, CEO da Maturi, esses dados refletem uma realidade cada vez mais comum no Brasil. “Muitas mulheres maduras encontram dificuldades para se recolocar no mercado de trabalho tradicional devido ao preconceito etário. O empreendedorismo e o trabalho autônomo surgem como alternativas para essas profissionais continuarem a desenvolver suas carreiras, ao mesmo tempo que buscam um propósito e um equilíbrio com suas vidas pessoais”, explica Litvak.

‍‍👩🏽‍🦱👩🏼‍🦱Motivações para a transição de carreira

👉🏼Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal (49%)

👉🏼Melhores condições financeiras (48%)

👉🏼Novos desafios profissionais (39%)

👉🏼Seguir uma paixão antiga (25%)

Fonte: Pesquisa feita pela Maturi


Obstáculos desafiadores a vencer

A transição de carreira é um momento desafiador para qualquer profissional, mas para mulheres com mais de 50 anos, os obstáculos podem ser ainda maiores. Segundo a psicóloga e pesquisadora Andrea Fidelis, essas mulheres enfrentam barreiras como o preconceito de gênero, o etarismo e a falta de familiaridade com tecnologias e redes sociais. "O mercado mudou muito, e as ferramentas digitais são essenciais. Isso impacta principalmente aquelas que não investiram em desenvolver novas habilidades ao longo da vida", explica.

Além das questões tecnológicas, a falta de networking e a ausência de investimentos na carreira também dificultam o crescimento ou a recolocação dessas profissionais. “Muitas mulheres não diversificaram suas habilidades ao longo do tempo, o que as deixa em desvantagem”, destaca Andrea.

O etarismo é uma realidade no Brasil, especialmente para as mulheres. A pesquisa da Maturi revelou que, entre os profissionais maduros, 34% das mulheres estão sem ocupação, em comparação com 27% dos homens. Mesmo entre aqueles que mantêm empregos formais, os homens (28%) estão em maior número do que as mulheres (21%).

O envelhecimento da população e o futuro do trabalho

As barreiras enfrentadas pelas mulheres com 50 anos ou mais vão além da idade. A questão de gênero também é um desafio, especialmente em um mercado que valoriza a juventude. “As mulheres sofrem com o etarismo mais cedo e de forma mais intensa do que os homens”, comenta Litvak. Ele destaca que, apesar das dificuldades, as mulheres dessa faixa etária têm mais abertura para o novo, sendo mais flexíveis e dispostas a se reinventar.

O Brasil está envelhecendo, e a força de trabalho segue essa tendência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de idosos no país cresceu 57,4% nos últimos 12 anos. Uma projeção da Fundação Getúlio Vargas aponta que, em 2040, 57% dos trabalhadores terão mais de 45 anos. Para Litvak, essa mudança demográfica exigirá uma adaptação das empresas. “Algumas já estão se movimentando, como a Nestlé e a Unilever, que criaram ações específicas para contratar profissionais maduros, mas ainda estamos longe de ver uma inclusão generalizada desse público.”

A Maturi trouxe para o Brasil a certificação internacional Age Friendly Employer, que reconhece empresas que adotam boas práticas para integrar profissionais 50+. No entanto, o número de empresas certificadas ainda é pequeno. Atualmente, apenas 13 empresas no país possuem a certificação.

Segundo Litvak, a inclusão etária é um desafio cultural e estratégico. “Hoje, 27% da população brasileira tem mais de 50 anos, e o número de empresas que realmente olham para essa questão ainda é muito pequeno. Isso precisa mudar para que o mercado de trabalho seja mais inclusivo e sustentável no futuro.”

Como identificar e seguir o propósito de vida

Conforme Andrea, encontrar o propósito de vida é fundamental para qualquer transição. "O trabalho é uma das formas mais potentes de darmos sentido à nossa existência. Quando estamos alinhadas com nossos propósitos, fazemos as coisas com motivação e perseverança. Isso nos impulsiona a seguir em frente, mesmo diante das dificuldades."

Para identificar o propósito, Andrea sugere um exercício de introspecção: "Revisite seus sonhos de infância e adolescência, resgate aqueles desejos e acrescente sua maturidade a eles." Ela também ressalta que os propósitos podem mudar ao longo do tempo, mas o importante é nunca ignorá-los, pois são eles que nos guiam na busca por novas oportunidades profissionais.

Adriane Borges está a caminho de se tornar psicóloga | Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação / CP

Tanto Suzana, Sionara quanto Adriane também ressaltam a importância do autoconhecimento nesse processo. As três compreenderam que a mudança não acontece da noite para o dia. “Eu me vejo como uma mulher forte e corajosa por me desafiar”, afirma Sionara, refletindo o sentimento de todas ao encarar a incerteza com determinação. Adriane acredita que a chave está na paciência, explicando que é necessário tempo para construir uma nova autoridade em uma carreira diferente. Suzana, por sua vez, não se deixou abater pelo preconceito, mantendo-se firme em seu propósito de bem-estar e satisfação pessoal.

👉🏼Como fazer uma transição de carreira bem-sucedida?

Mais da metade das mulheres entrevistadas (55%) afirmaram ter um planejamento financeiro para a transição de carreira, enquanto 42% reconhecem que seu plano pode não ser suficiente, dependendo das circunstâncias. Confira dicas de Litvak e de Andrea:

1. Autoconhecimento: entender suas habilidades, interesses e valores é essencial. Saber o que se busca nessa nova fase é o primeiro passo.

2. Capacitação: investir em cursos e treinamentos que atualizem as habilidades também é fundamental. Áreas como tecnologia, saúde e educação têm sido os principais focos de interesse.

3. Networking: manter e expandir a rede de contatos pode abrir portas. Utilizar ferramentas como o LinkedIn e participar de eventos presenciais ajuda a construir uma rede de apoio.

4. Planejamento financeiro: ter um planejamento financeiro sólido pode garantir uma transição mais tranquila, mesmo em períodos de instabilidade.

5. Encontrar seu propósito de vida: reflita sobre o que te inspira e faz sentir realizado; é o primeiro passo para uma jornada com mais sentido.

👉🏼 Leia também: Pesquisa Catho: 60% das mulheres 50+ veem mercado de trabalho retraído

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