O filme “Divertida Mente 2” ficou entre os assuntos mais comentados nas redes sociais mesmo antes da estreia por apresentar uma nova personagem que representa a ansiedade. Na produção, a menina Riley passa pelos conflitos da adolescência e precisa lidar com novas emoções.
Além de gerar muitos memes com a personagem laranja desajeitada, a animação impulsionou uma série de reflexões e alertas sobre ansiedade, um problema que atinge 4% da população global e 9,3% dos brasileiros, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mesmo com o tema bastante em alta, as discussões muitas vezes deixam de lado um dado extremamente importante: o transtorno é duas vezes mais comum nas mulheres do que nos homens. Conforme um estudo da Universidade de Cambridge, esse número independe de outras questões, como classe social, etnia e localização no globo.
Pesquisas brasileiras recentes também comprovam esse cenário preocupante. O Datafolha mostrou, em agosto do ano passado, que 27% das mulheres já tiveram diagnóstico de ansiedade, quase o dobro da taxa registrada para homens (14%). Já a ONG Think Olga, em maio de 2023, apontou que o problema faz parte do dia a dia de 6 em cada 10 brasileiras.
Para a psicóloga Silvana Aguiar, mesmo que questões hormonais e genéticos estejam relacionadas, os fatores sociais e culturais, como a sobrecarga de trabalho, a autocobrança e o medo de sofrer estupro e assédio tornam as mulheres as “vítimas perfeitas” para o transtorno de ansiedade.
“Culturalmente, somos ‘jogadas para os leões’. Ansiedade tem a ver com perigo, com fuga. É como se nós, mulheres, tivéssemos que sobreviver no mundo hoje”, diz.
No filme, essa pressão social fica bastante evidente quando Riley se esforça para fazer parte do grupo popular da nova escola. Em uma das cenas mais fortes da animação, a adolescente passa por uma crise de ansiedade, enquanto a “emoção laranja” cria um verdadeiro caos na sala de controle de seu cérebro. A crise acontece durante um momento decisivo de um jogo de hóquei, quando Riley acredita que só será aceita pelos novos colegas se tiver um bom desempenho na competição.
Silvana, que também é responsável técnica na Clínica Alliviare, com atendimento focado em mulheres, destaca como essa pressão está presente em todas as fases da vida. “A solteira sofre a cobrança para ter alguém do lado, enquanto a recém-casada precisa ter filhos. Mas se não quiser casar ou ter filhos, também será julgada.” Já na área profissional, diferenças de gênero e de salário impõem que as mulheres tenham sempre um bom desempenho.
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Quando o corpo chega no limite
De acordo com a especialista, a ansiedade é uma resposta natural do nosso corpo em situações de perigo, caminhando junto com o medo, sendo benéfica em seu estado normal. “Ela vira um transtorno quando tem uma intensidade maior e começa a prejudicar nossa vida”, explica.
Para Silvana, o estigma de que as mulheres precisam dar conta de tudo faz com que o problema seja mascarado por muito tempo. “Muitas chegam no consultório no extremo, sem conseguir sair de casa, com várias crises de pânico”, conta. Sintomas como taquicardia, suor frio, tremores ou falta de controle do corpo caracterizaram o transtorno de ansiedade generalizada (TAG).
Mas antes de chegar ao extremo, o corpo já emite vários sinais, alerta a profissional. Acordar “acelerada”, ter dificuldade para dormir, comer muito ou parar de sentir fome podem indicar que algo está errado.
Além do tratamento com medicamentos e das consultas com psiquiatras, a profissional ressalta a importância da psicoterapia para tratar a origem do transtorno de ansiedade. “A gente consegue identificar e trabalhar toda a estrutura para que a mulher compreenda como chegou até esse ponto e como pode fazer diferente. O processo terapêutico é para ‘tirar o véu’”, explica.
Para quem não tem condições de procurar ajuda terapêutica, Silvana recomenda a construção de uma rede de apoio, que pode ser formada por amigas e vizinhas. “Normalmente, uma pessoa está passando por isso se fecha no mundo dela. E sem rede de apoio, a situação fica muito difícil. Quando a gente está cercado de pessoas que podem pelo menos nos ouvir, isso já ajuda bastante. É importante buscar ferramentas dentro do mundo dela”, conclui.
