De cápsulas a compostos em pó de várias vitaminas para suplementação, a pesquisa na internet por “suplemento para aumentar imunidade” tem sido realizada por muitas pessoas que desejam melhorar a saúde. Apesar disso, o consumo desses compostos por pessoas saudáveis, e sem orientação médica, não apresenta evidências científicas.
A venda de vitaminas e suplementos no Brasil cresceu 37%, de acordo com levantamento da Interplayers que contemplou o período entre março de 2024 e fevereiro de 2025. Além da influência gerada por conteúdos em redes sociais, publicidades na internet e o aumento na preocupação com saúde preventiva pós-pandemia de Covid-19, o crescimento se relaciona com a rotina dos compradores.
A professora de Nutrição na Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (Fadergs), Rochele Boneti, explica: “Esse mercado ficou muito forte também porque as pessoas estão tendo cada vez menos tempo para fazer suas refeições e querem compensar com o suplemento”. Além disso, a facilidade de acesso e a percepção de que esses suplementos são naturais e inofensivos também aparecem entre os principais fatores que justificam a compra e o uso dos compostos.
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Apesar de parecerem inofensivos, Rochele esclarece que estes suplementos, diferentemente de medicações, não precisam passar por tantas etapas de comprovação de eficácia para terem a venda liberada. “É um mercado que cresceu demais nos últimos cinco ou dez anos, o que aumenta os riscos, porque o mercado que cresce tanto pode não ter tanto controle da qualidade dessa produção”, afirma.
Do ponto de vista científico, o uso de suplementos sem orientação especializada e por pessoas saudáveis não tem evidências, como aponta a coordenadora do curso de Biomedicina na FADERGS, Fabiana Guichard. “Esses produtos podem até ser úteis em casos específicos, como deficiências comprovadas ou condições clínicas particulares, mas não devem ser utilizados de forma generalizada”, diz.
Efeitos da sobrecarga de vitaminas
Tomar os chamados suplementos para imunidade sem acompanhamento ou necessidade clínica pode sobrecarregar o organismo. Quando o excesso dos nutrientes passa a ser prejudicial, o quadro é chamado de hipervitaminose, com sintomas que podem envolver náuseas, vômitos, alterações hepáticas e nos rins.
Por serem as mais difíceis de eliminar do corpo, as vitaminas A, D, E e K são acumuladas em órgãos quando suplementadas de forma indevida, podendo causar lesões. As mais comuns são no fígado e nos rins, uma vez que estão envolvidos no processo de eliminação dos excessos de vitaminas. “Essa quantidade em exagero pode interferir em processos metabólicos, causar danos celulares e até afetar o equilíbrio de outros nutrientes”, ressalta Fabiana.
As vitaminas A e D são as que mais apresentam riscos. No caso da vitamina A, que ajuda a manter a saúde da pele, a ingestão excessiva aumenta o risco de câncer de pele a longo prazo. Queda de cabelo, lábios rachados e pele seca também podem ser consequências. Já a vitamina D em excesso pode fazer com que o organismo absorva mais cálcio. Acumulada em locais como artérias, causa calcificação, além de aumentar o cálcio no sangue – causando sintomas como náuseas, vômitos, fraqueza e cálculos renais.
Em idosos, o uso sem prescrição e acompanhamento profissional merece ainda mais atenção. Por já apresentarem maior possibilidade de desenvolver doenças crônicas devido à idade e terem um metabolismo mais lento para a eliminação dos excessos, as pessoas mais velhas ficam mais propensas aos efeitos do acúmulo exagerado de vitaminas.
Outros grupos que devem ficar atentos são crianças e gestantes. A suplementação em crianças só deve ocorrer em casos muito específicos. Uma das únicas recomendações é a de vitamina A, que pode ser encontrada no SUS. Em relação às gestantes, o uso indevido de algum suplemento pode afetar a formação do feto.
O uso de suplementos vitamínicos sem necessidade pode desregular mecanismos do corpo de absorção, transporte e armazenamento de nutrientes, o que pode causar desequilíbrios nutricionais. Segundo Fabiana, o uso contínuo também afeta o diagnóstico de problemas de saúde que já existiam antes do quadro de hipervitaminose.
Durante o processo de suplementação, a alteração na cor ou odor da urina é um dos principais indicativos de possíveis níveis de vitamina elevados. As duas especialistas recomendam suspender os suplementos se a situação for observada. Na sequência, a recomendação é procurar um profissional da nutrição para adaptar a rotina alimentar e restringir o consumo de alguns nutrientes por algum tempo. Em caso de persistência dos sintomas, é preciso procurar um médico.
Como saber quando suplementar
Realizar exames laboratoriais é um dos primeiros passos para verificar a necessidade de suplementação. Fabiana explica que os resultados apresentam valores de referência, que representam as faixas adequadas para o funcionamento correto, constante e equilibrado do organismo, e que são definidos a partir de estudos populacionais e evidências científicas.
“Estar abaixo pode indicar deficiência e comprometer a imunidade, enquanto estar acima, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não necessariamente traz benefício e pode, inclusive, causar efeitos adversos”, aponta a coordenadora do curso de Biomedicina. “Os referenciais são parâmetros técnicos que orientam decisões clínicas seguras e tratamentos quando necessário”, ressalta a biomédica.
A partir do exame laboratorial é possível realizar uma avaliação clínica, na qual os dados são relacionados com sintomas, histórico do paciente, hábitos de vida e outros possíveis exames. É importante que esta avaliação seja feita por um profissional da saúde, pois a interpretação inadequada pode levar a conclusões equivocadas. De acordo com Fabiana, nem todo valor fora do “ideal” precisa ser corrigido imediatamente, uma vez que é preciso avaliar se não há outros fatores influenciando no resultado.
“Cada um tem uma individualidade, um tipo de absorção, um tipo de alimentação, e cabe ao nutricionista avaliar isso, porque, no momento em que você tem uma alimentação variada, na maior parte das vezes, você atinge as recomendações de vitaminas e minerais”, explica Rochele.
A principal recomendação das especialistas para quem quer manter a saúde e o sistema imunológico em bom funcionamento é consumir alimentos que sejam boas fontes de nutrientes, manter o sono adequado e equilibrar com outras atividades. A indicação também inclui realizar periodicamente os exames laboratoriais e sempre procurar um profissional da área da saúde para realizar o acompanhamento clínico e nutricional, de maneira que a individualidade de cada caso seja considerada.
