Com a chegada oficial do inverno, muita gente passa a sentir um incômodo conhecido: joelhos mais rígidos, dores na coluna, músculos tensionados e aquela sensação de que o corpo “trava” nos dias frios. Embora o desconforto costume ser associado apenas à queda da temperatura, especialistas explicam que há razões fisiológicas e comportamentais para o aumento das dores nesta época do ano.
O frio faz o organismo acionar mecanismos naturais para preservar o calor corporal. Entre eles está a contração dos vasos sanguíneos, que reduz a circulação nas extremidades e pode aumentar a rigidez muscular e articular. Esse processo tende a intensificar dores já existentes, especialmente em pessoas com artrose, artrite, fibromialgia, lombalgia, tendinites, bursites, dores musculares persistentes ou sequelas de fraturas e cirurgias ortopédicas.
Segundo o Ministério da Saúde, 36,9% dos brasileiros com mais de 50 anos convivem com dores crônicas. Já a Sociedade Brasileira de Reumatologia estima que cerca de 30 milhões de pessoas no país tenham algum tipo de doença reumática. Para esses grupos, o inverno pode representar um período de maior vulnerabilidade.
Frio, rigidez e menos movimento
De acordo com o neurocirurgião Marcelo Valadares, responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Unicamp e especialista no tratamento da dor crônica, o agravamento dos sintomas no inverno é multifatorial. Além da redução do fluxo sanguíneo periférico e do aumento da rigidez muscular, as baixas temperaturas também podem afetar o sono, o humor e a disposição.
Essas alterações ajudam a explicar por que pacientes com sintomas depressivos, histórico de quedas, hospitalizações ou maior isolamento social podem perceber a dor de forma mais intensa durante os meses frios. A menor exposição à luz solar e a tendência a permanecer mais tempo em casa também contribuem para esse quadro.
O ortopedista José Leonardo Rocha, do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, reforça que as condições climáticas podem influenciar a intensidade da dor em pessoas com artrose e outras condições musculoesqueléticas crônicas. Mas ele faz uma ressalva importante: essa relação não ocorre da mesma forma para todos e não deve ser tratada como uma regra absoluta.
Na prática, isso significa que o frio pode piorar sintomas em algumas pessoas, mas não é a única causa da dor. O histórico de saúde, o nível de atividade física, a qualidade do sono, o tratamento em andamento e até fatores emocionais também entram nessa conta.
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Quem costuma sentir mais
Os efeitos das baixas temperaturas tendem a ser mais percebidos por idosos, mulheres, pessoas com dores crônicas, pacientes com doenças articulares e quem já sofreu lesões ortopédicas. Moradores de regiões frias, cidades de altitude ou áreas urbanas com pouca exposição solar também podem relatar mais desconforto.
Em quem passou por fraturas ou cirurgias, a sensibilidade no inverno costuma estar relacionada aos tecidos ao redor da área lesionada, às cicatrizes e à rigidez local. Isso não significa, necessariamente, que placas, parafusos ou próteses sejam a causa direta da dor.
Outro ponto de atenção é a queda na prática de atividade física. No frio, muita gente se movimenta menos, fica mais tempo sentada ou deitada e acaba reduzindo a mobilidade das articulações. O resultado pode ser um ciclo bem conhecido: quanto menos movimento, mais rigidez; quanto mais rigidez, maior a sensação de dor.
Exercício precisa de aquecimento
O inverno também pode aumentar o risco de lesões musculares, especialmente em quem pratica exercícios sem preparação adequada. Com os músculos mais contraídos e menos flexíveis, atividades feitas “a frio” favorecem contraturas, estiramentos e desconfortos.
Para o ortopedista Carlos Vicente Andreoli, da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, o corpo leva mais tempo para atingir a temperatura ideal para o exercício nos dias frios. Por isso, o aquecimento ganha ainda mais importância antes de caminhadas, corridas, treinos de musculação, bicicleta ou atividades ao ar livre.
A recomendação não é abandonar o movimento, e sim adaptar a rotina. Caminhada, bicicleta ergométrica, hidroginástica, pilates, musculação supervisionada e alongamentos podem ajudar a preservar a mobilidade, fortalecer a musculatura e reduzir a sensação de enrijecimento.
Cuidados que ajudam no dia a dia
Algumas medidas simples podem amenizar o desconforto no inverno. Manter o corpo aquecido, principalmente mãos, pés, joelhos, ombros e coluna, é uma delas. Também é importante evitar longos períodos de inatividade, levantar ao longo do dia, mudar de posição e manter algum nível de movimento regular.
A hidratação merece atenção, mesmo quando a sensação de sede diminui. Em idosos, esse cuidado é ainda mais importante. Para quem já tem diagnóstico de artrose, tendinite, artrite, fibromialgia ou outras condições crônicas, o tratamento prescrito não deve ser interrompido sem orientação médica.
Tratamentos complementares, como fisioterapia, acupuntura, massagens e técnicas de relaxamento, também podem auxiliar no controle dos sintomas, desde que integrados a um acompanhamento adequado. O suporte psicológico pode ser importante quando a dor vem acompanhada de insônia, ansiedade, tristeza ou isolamento social.
Dor ocasional em dias frios pode acontecer. Mas quando o desconforto é persistente, intenso, limita movimentos ou interfere nas atividades do dia a dia, a orientação dos especialistas é procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce ajuda a identificar lesões, doenças articulares ou agravamentos e permite ajustar o tratamento antes que o problema avance.
