Medicamentos usados no tratamento do diabetes e da obesidade abriram uma nova frente de pesquisas sobre o lipedema, condição que afeta principalmente mulheres e provoca acúmulo desproporcional de gordura, dor e sensibilidade nos membros. Entre as substâncias investigadas está a exenatida, da classe dos agonistas do receptor de GLP-1. Os primeiros resultados apontam possíveis benefícios, mas ainda não permitem estabelecer esses remédios como tratamento específico para a doença.
A expectativa é compreender se os efeitos sobre o metabolismo e possíveis ações sobre a inflamação e a fibrose — alterações que podem deixar o tecido mais endurecido — ajudam a aliviar os sintomas. Até agora, porém, as evidências são preliminares.
A dermatologista Taciana Dal’Forno Dini, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Secção do Rio Grande do Sul (SBD-RS), ressalta que são necessários estudos mais amplos para avaliar a eficácia e a segurança dessas abordagens. A médica é a primeira autora de uma revisão sobre lipedema publicada em 2026 nos Anais Brasileiros de Dermatologia.
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O que os estudos com medicamentos mostram
Uma série de casos publicada em 2025 acompanhou cinco mulheres com lipedema e resistência à insulina que receberam exenatida semanalmente, durante três a seis meses. Os pesquisadores observaram redução da dor e da espessura do tecido adiposo subcutâneo. Algumas participantes também fizeram mudanças na alimentação ou na atividade física, o que dificulta separar os efeitos do medicamento dos demais cuidados.
O número reduzido de participantes e a ausência de um grupo de comparação impedem conclusões definitivas. Os resultados também não podem ser automaticamente estendidos a outros medicamentos usados para emagrecimento.
“Existe uma perspectiva, mas ainda não sabemos se esses medicamentos vão auxiliar no lipedema, reduzindo o volume dos membros e melhorando a dor de forma consistente. Precisamos de ensaios clínicos randomizados e controlados para avaliar a eficácia e a segurança”, afirma Taciana.
Uma pesquisa mais recente, baseada em questionário on-line com 2.719 participantes, encontrou relatos de menor intensidade de dor, inchaço e limitações funcionais entre usuárias de medicamentos que atuam em GLP-1 ou GLP-1/GIP. A tirzepatida era a substância mais utilizada. Como o levantamento se baseia em informações relatadas pelas próprias participantes, sem distribuição aleatória dos tratamentos, não demonstra que os remédios tenham causado essas diferenças.
Novas tecnologias ainda têm evidências limitadas
As pesquisas também investigam tecnologias corporais para aliviar os sintomas. Segundo Taciana, apenas dois estudos sobre ondas acústicas foram identificados na revisão da qual participou, o que mostra como essa área ainda precisa de investigação.
Enquanto novas possibilidades são avaliadas, o cuidado deve ser individualizado. Atividade física, orientação alimentar, peças de compressão e drenagem linfática manual podem integrar o acompanhamento, conforme os sintomas e as necessidades de cada paciente, explica a dermatologista.
O objetivo é reduzir o desconforto, preservar a mobilidade e melhorar a qualidade de vida. Em casos selecionados, a lipoaspiração pode ser considerada após avaliação dos benefícios, dos riscos e da recuperação.
Dor e hematomas ajudam a reconhecer o lipedema
Frequentemente confundido com obesidade ou retenção de líquidos, o lipedema costuma afetar coxas, pernas e quadris, podendo atingir também os braços. O aumento de volume geralmente ocorre dos dois lados do corpo, enquanto pés e mãos costumam ser preservados.
“O lipedema acomete principalmente mulheres, com aumento desproporcional, simétrico e doloroso do tecido adiposo, sobretudo nos membros inferiores. Uma característica é a persistência desse acúmulo mesmo após a perda de peso”, explica Taciana.
Isso não significa que emagrecer seja inútil: quando há sobrepeso ou obesidade associados, a redução de peso pode diminuir também o volume das pernas e contribuir para a mobilidade. A desproporção e os sintomas, entretanto, podem persistir.
Sensibilidade ao toque, sensação de peso e facilidade para desenvolver hematomas estão entre os sinais que merecem avaliação. O diagnóstico é principalmente clínico, baseado na história e no exame físico, e precisa distinguir o lipedema de outras causas de aumento dos membros. A aparência das pernas, isoladamente, não confirma a condição.
