Um dos acontecimentos mais ritualizados de nossa cultura é a morte física. Temos uma sequência de ritos funerários, reunião de pessoas e feriado. Temos luto e, se pensarmos no México, temos até festa, que neste ano contou com uma Catrina de 32 metros de altura, a maior da história. Catrina, a mulher-caveira, é a imagem mais associada ao Dia dos Mortos mexicano desde meados do século XX. Uma celebração monumental da morte.
Mas tanto os rituais fúnebres quanto a festa são ocasionais, ao passo que a morte é presença corriqueira em nossas vidas: quase todos os dias morrem expectativas, projetos, sonhos, ilusões. Quando estamos na meia-idade, a impressão é de que essas mortes se tornam ainda mais próximas e dolorosas, pois precisamos enterrar até mesmo partes de nossa identidade que nos serviram durante a juventude, mas que agora deixam de ter lugar: a boazinha demais, a perfeccionista, a workaholic, a que se colocava sempre em segundo plano, a “dona da verdade”, a que resolvia os problemas de todo mundo, a que não estabelecia limites por medo de desagradar.
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Também temos que nos despedir de planos que não são mais possíveis, de relações que oferecem menos do que exigem, da necessidade de validação alheia e das idealizações sobre quem deveríamos ser. Algumas dessas mortes acontecem sem que percebamos, mas a maioria delas depende, em alguma medida, de nossa disposição para abandonar o que já não faz sentido e abrir espaço para o novo.
As mudanças físicas provocadas pelo tempo também nos confrontam com perdas que nem sempre sabemos como elaborar. A menopausa marca transformações que vão além da fertilidade. Podemos ter menos energia e paciência. A vida sexual pede revisão. O sono não é mais o mesmo, assim como o corpo e o rosto que reconhecíamos no espelho. Muda, ainda, a maneira como somos olhadas, à qual muitas de nós aprendemos a associar nosso valor.
Embora todas essas pequenas mortes estejam presentes em nossas vidas, elas raramente são reconhecidas – e, portanto, não nos permitimos viver seu luto. A sociedade tem regras silenciosas sobre quem pode sofrer e pelo quê: se alguém morre, há visitas, dispensa do trabalho, consolo. Mas ninguém manda flores quando o corpo deixa de ser o que era, nem organiza velório para o projeto que não vingou, para a relação que terminou, para a casa que esvaziou ou para o sonho que expirou. Quando a perda não tem certidão de óbito, a dor sequer encontra palavras, e seguimos como se nada tivesse acontecido.
Só que as perdas sem luto não desaparecem com o tempo. Elas podem continuar repercutindo em nossa vida emocional, manifestando-se como irritação, cansaço ou uma tristeza difícil de traduzir. É por isso que os ritos importam: eles marcam a passagem de um estado para outro, nos ajudam a reconhecer o que terminou e criam espaço para que possamos avançar.
Não há como fugir das pequenas mortes que a vida vai intensificando a partir da meia-idade – nem dos lutos que elas pedem. Se nossa cultura as enxergasse com naturalidade, em vez de nos cobrar pelo que já não somos, poderíamos fazer como Catrina: assumir o nosso tamanho não apesar das perdas, mas por causa delas.
Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de onze anos e tem dois livros sobre o tema.
