Há poucos dias, descobri a palavra que denomina o cheiro da terra molhada pela chuva: petricor. Ela tem uma etimologia bonita, que vem do grego petra, pedra, e ichor, o sangue que corria nas veias dos deuses. O sangue sagrado das pedras.
O que me chamou mais a atenção, no entanto, não foi a palavra em si, mas um detalhe sobre o fenômeno que ela nomeia: aquele aroma não é criado pela chuva, como costumamos pensar – ela apenas libera para o ar substâncias que já estavam no solo, à espera, durante um período de seca. A água desperta alguma coisa que já havia ali, mas era imperceptível aos sentidos.
Penso nas mulheres maduras quando descubro isso. Durante boa parte da vida, aprendemos a deixar nossos desejos tão enterrados que até perdemos a capacidade de reconhecê-los. Desde cedo, somos ensinadas a nos ajustar ao que se espera de nós. As expectativas sobre como uma mulher deve ser e se comportar estão por toda parte: na família, nos relacionamentos, no trabalho, na publicidade, nos exemplos que tivemos. Aprendemos a cuidar, conciliar, agradar, sustentar. A adiar o que queremos, enquanto atendemos aos desejos dos outros.
Na meia-idade, porém, algumas condições mudam. Os filhos crescem, relações familiares e afetivas se transformam, o corpo muda, o trabalho deixa de ocupar o mesmo lugar. Ao nos percebermos envelhecendo, nossa consciência sobre a finitude do tempo se torna mais aguda, e aquilo que foi sendo colocado de lado começa a pedir atenção.
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Então, a chuva chega. E não precisa ser uma tempestade, uma grande ruptura: algumas gotas podem ser suficientes. Essas gotas podem vir na forma de uma viagem que já foi considerada inviável, uma mudança profissional, um relacionamento que termina ou que começa, uma mudança de cidade, uma perda, um projeto de vida que ganha espaço. Pelo motivo que for, a pergunta “O que esperam de mim?” começa a dividir espaço com outra, muito difícil para algumas mulheres: “O que eu quero?” A chuva não inventa o desejo, mas faz emergir o que estava encoberto por anos de adaptações, à espera de ser reconhecido.
E há outra coisa que me encanta nessa imagem. O olfato humano é especialmente sensível ao petricor: somos capazes de detectá-lo mesmo em concentrações muito pequenas. Entre mulheres, existe uma sensibilidade semelhante para reconhecer movimentos de liberdade. Uma mulher que viaja sozinha, muda de profissão, termina um casamento, volta a estudar, começa um projeto ou faz escolhas diferentes das que se esperavam dela pode despertar em outra um desejo que ainda não havia encontrado a água para fluir.
É assim que a inspiração circula entre nós. Ao vermos outra mulher seguir um caminho que antes nos parecia impensável, ampliamos o horizonte do que consideramos possível para nossas próprias vidas. A liberdade de uma pode ser a chuva que faltava para outra.
Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de 11 anos e tem dois livros sobre o tema.
