Adriana Haas

A maturidade toca outra música

Adriana Haas escreve sobre como as mudanças da meia-idade oferecem novas perspectivas e a chance de uma "segunda vida" para as mulheres

A segunda vida não nos convoca a reencontrar a mulher que éramos, mas a conhecer aquela que ainda podemos ser, diz Adriana Haas
A segunda vida não nos convoca a reencontrar a mulher que éramos, mas a conhecer aquela que ainda podemos ser, diz Adriana Haas Foto : Canva / Divulgação / CP

Na semana passada, escrevi sobre a dança das cadeiras, aquela brincadeira de infância em que havia uma cadeira a menos do que o número de participantes e, quando a música parava, alguém acabava sobrando. A coluna não era sobre o jogo em si, mas sobre como mudar de lugar pode nos oferecer novas perspectivas para olhar os mesmos acontecimentos e, assim, reinterpretá-los.

Embora na maturidade a dança das cadeiras se transforme em brincadeira de gente grande, ela segue nos reservando o mesmo desafio: quando a música para, podemos descobrir que não há mais uma cadeira onde sentar. E isso significa que estamos fora daquele jogo.

A vida adulta também é cheia de jogos que terminam – e a maturidade nos oferece muitos encerramentos. É uma fase de mudanças: profissionais, com carreiras reconfiguradas; familiares, com filhos saindo de casa, pais necessitando de atenção ou cuidados simultâneos de idosos e crianças; e de relacionamento, com relações sendo reexaminadas. Junto com essas mudanças, acontece outra que costumamos deixar apenas como música de fundo: a percepção de nosso envelhecimento, muitas vezes coincidindo com os primeiros sinais da transição hormonal da menopausa.

Vou usar a terminologia da psicóloga Marisa Sanabria, que chama nossos anos de juventude de “primeira vida”. Nela, nos esforçamos muito para conquistar um lugar e construir uma identidade – com base, especialmente, no olhar dos outros.

Há um roteiro bastante claro a seguir, que orienta nossos passos na primeira metade da vida adulta. O problema é que esse roteiro costuma associar a vida produtiva apenas à juventude, como se, ao chegar à maturidade, as mulheres devessem simplesmente deixar a dança. Como se já não houvesse cadeiras para elas.

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Mas a meia-idade chega nos trazendo a segunda vida. Ela causa estranhamento pela percepção de que não somos mais as mesmas – às vezes com alterações de humor, irritabilidade, emoções à flor da pele, calores inoportunos, sono oscilante e um sentimento novo de que algo está fora do lugar.

Difícil evitar a frase mais dita por mulheres que chegam na maturidade: “Não me reconheço mais”. E quando isso vem junto com aquelas outras mudanças na vida como conhecíamos, podemos nos perder completamente na coreografia. É essencial equilibrar seus copinhos.

No entanto, isso pode ser apenas o desconforto inicial de começar uma nova dança, em que ainda precisamos encontrar o ritmo. Os desafios aparecem junto com as possibilidades: mais clareza sobre quem somos e o que desejamos, maior equilíbrio emocional, menos preocupação com a opinião alheia – e, se não ficarmos em volta da mesma cadeira, mais liberdade para viver novas experiências. É preciso a coragem de quebrar os ovos.

A segunda vida não nos convoca a reencontrar a mulher que éramos, mas a conhecer aquela que ainda podemos ser. A primeira dança terminou: não porque tenhamos perdido a capacidade de dançar, mas porque a música mudou. Permanecer esperando que ela volte a tocar do mesmo jeito apenas nos mantém paradas diante de uma cadeira que já não existe. A maturidade começa quando aceitamos entrar na nova roda.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.