Adriana Haas

Maturidade: a beleza que o tempo revela

A colunista Adriana Haas convida a enxergar o valor e a história nas marcas que a vida deixa na gente ao longo do caminho

Depois de décadas acumulando histórias, não somos apenas aquilo que mostramos à primeira vista, diz Adriana Haas
Depois de décadas acumulando histórias, não somos apenas aquilo que mostramos à primeira vista, diz Adriana Haas Foto : Magnific / Divulgação / CP

Uma mulher de 40 e poucos anos me confidenciou estar muito triste por constatar, na própria imagem, a passagem do tempo. Anda evitando até aparecer em fotos porque, inevitavelmente, se decepciona ao procurar a si mesma como a jovem que não está mais lá.

Não é exagero. Há uma dor real nesse encontro com o espelho quando percebemos que a imagem de juventude começou a se transformar. A aparência não é apenas superfície: ela participa da forma como construímos nossa identidade, como nos reconhecemos e como somos reconhecidas pelos outros. Quando essa imagem muda, somos confrontadas com a passagem do tempo de uma maneira concreta e, muitas vezes, difícil de elaborar.

Um dos grandes motivos para isso é que nossa cultura tem dificuldade em enxergar a beleza no que foi transformado pelo tempo. Aprendemos a associar valor apenas ao que permanece jovem, liso, intacto, como se as marcas da passagem dos anos fossem evidências de declínio, e não registros de uma trajetória.

Mas há tradições em que esse olhar é bem diferente. Na estética japonesa, por exemplo, existem conceitos que nos convidam a outras perspectivas. Eles não negam as transformações nem tentam escondê-las; ao contrário, encontram beleza naquilo que foi modificado pela experiência.

Um desses conceitos é o “wabi-sabi”, uma forma de perceber a beleza na imperfeição e nas marcas deixadas pelo tempo. Uma peça de cerâmica com uma fissura, uma madeira desgastada pelo uso: aquilo que foi tocado pelo tempo, em vez de perder valor, ganha história. Quando trazemos essa ideia para nossas vidas, podemos considerar que cada vivência, cada escolha, cada dificuldade e cada recomeço acrescentaram camadas que nos tornam mais interessantes.

Outro conceito japonês, “mono no aware”, traz a compreensão de que as coisas são preciosas justamente porque não permanecem iguais para sempre. A beleza da flor de cerejeira não está apenas no florescimento, mas também na percepção de que aquele momento é passageiro. Com essa consciência, em vez de encarar o tempo como ameaça, podemos reconhecer a riqueza da transitoriedade e da singularidade de cada momento.

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Há ainda um terceiro conceito, “yūgen”, que fala de uma beleza que não se revela de imediato, mas surge quando aprendemos a olhar com mais atenção. O yūgen nos convida a perceber que algumas belezas não estão na superfície, exigindo presença e sensibilidade para serem reconhecidas. É um olhar mais generoso que também podemos dirigir às nossas próprias trajetórias. Sobre as novas linguagens da maturidade, a vida se encarrega de apresentar caminhos.

Depois de décadas acumulando histórias, não somos apenas aquilo que mostramos à primeira vista. Tudo o que vivemos nos remodelou e fez com que fôssemos tomando novas formas – que talvez estranhemos de imediato. Mas a segunda metade da vida pode ser o momento de valorizar o processo de criação antes da forma final. Se algumas culturas enxergam beleza onde outras veem perda, a passagem do tempo também pode ser uma questão de perspectiva. Não para negar a dor do que foi perdido, mas para admirar aquilo que só poderia existir depois de tudo o que vivemos.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.