Adriana Haas

Na maturidade, o medo custa mais caro

Adriana Haas reflete sobre os desafios de se aventurar no desconhecido e como a maturidade molda nossas decisões

Com a maturidade, cresce a consciência de que nem toda oportunidade espera, escreve Adriana Haas
Com a maturidade, cresce a consciência de que nem toda oportunidade espera, escreve Adriana Haas Foto : Adriana Haas / Arquivo Pessoal / CP

Talvez eu tivesse tomado sol demais na cabeça no dia em que decidi que, durante minha estadia em Oslo, iria a uma sauna. Não uma sauna como as nossas, mas uma espécie de casinha flutuante, com um pequeno deque de onde é possível escapar do calor mergulhando nas águas do Mar do Norte. É uma tradição norueguesa e, como minha viagem aconteceria na primavera tardia do Hemisfério Norte, quase verão, imaginei que seria uma forma diferente e refrescante de terminar o dia.

Foi então que descobri que as estações do ano também são uma questão de costume.

Quando desembarquei em Oslo, não percebi grande diferença em relação ao outono que havia deixado no Brasil. Os noruegueses, no entanto, circulavam de camiseta, vestido e bermuda como se o verão já tivesse chegado. Da Ópera de Oslo, distante pouco mais de cem metros da sauna que me aguardava no dia seguinte, eu via pessoas saírem dela e mergulharem no mar enquanto eu fechava o casaco até o queixo para me proteger do vento gelado. E sofria por antecipação.

É claro que pensei em desistir e dar como perdido o dinheiro do ingresso. Mas o dia amanheceu ensolarado e me encorajou. Eu não precisava me jogar na água a 15 graus se não quisesse, pensei. Poderia permanecer confortavelmente aquecida lá dentro.

Acontece que não há conforto possível no calor de 85 graus de uma sauna aquecida por um fogão a lenha e pedras que, até elas, precisavam ser molhadas de tempos em tempos. Quanto a nós, “um mergulho a cada quinze minutos", recomendou o rapaz que nos recebeu. Pois em pouco mais de cinco, lá estava eu, avermelhada de tanto calor, me jogando na água gelada – sem sofrimento e com alívio.

Foi a primeira vez que aconteceu na Noruega, mas não na minha vida. Nem saberia contar quantas vezes sofri por algo que ainda nem havia experimentado, imaginando um martírio muito maior do que a realidade me apresentaria depois. Ou descobrindo que aquilo que mais me apavorava acabaria se tornando a melhor parte.

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O cérebro, na tentativa de nos proteger, costuma pintar o desconhecido com cores mais escuras do que ele realmente tem. É um mecanismo que ajudou nossa espécie a sobreviver, mas acaba sabotando nossas tentativas de viver além do que é previsível, nos convencendo a desistir antes mesmo de tentar.

Na maturidade, isso pesa ainda mais porque, diferentemente de quando éramos jovens, temos consciência de que a vida pela frente ainda pode ser muita – mas também pode não ser. Sabemos que qualquer oportunidade pode ser única. Ainda assim, continuamos adiando viagens, projetos e aventuras.

Não sei se algum dia voltarei a Oslo. Gostaria, mas há muitos outros lugares que ainda quero conhecer e outras tantas experiências esquisitas que desejo viver – e ninguém sabe quanto tempo a vida me reserva para isso. O câncer foi um lembrete de que não há garantias nem quanto às próximas férias. Por isso, decidi desconfiar um pouco menos do desconhecido e não desperdiçar meu tempo imobilizada por cenários que minha cabeça inventa. O medo quase sempre exagera. A vida, nem tanto.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.