Uma amiga me disse outro dia que estava se sentindo "em modo de inverno", como quem pede perdão por estar mais quieta, menos disponível, produzindo menos. Não que algum problema a estivesse imobilizando – era uma necessidade, vinda sabe-se lá de onde, que chegou impondo menos velocidade.
Eu entendi o que ela quis dizer. Também já busquei no tempo expressões que pudessem servir como “desculpa” para períodos de menor produtividade, como se desacelerar fosse uma falha temporária a ser corrigida assim que a energia voltasse. E enquanto procurava uma justificativa nas palavras, me sentia culpada por não estar dando conta de tudo da mesma forma.
Isso tem mudado nos últimos anos.
Hoje sou uma mulher madura que, no inverno passado, concluía uma quimioterapia, adotando um ritmo lento que jamais tivera. Pela primeira vez, tinha a nuca exposta ao frio, sem cabelos que a protegessem – uma parte bem pequena de tudo o que estava mudando. E aprendi, graças ao que as estações ensinam e ao que a vida traz com elas, a parar de me desculpar quando não produzo algo que possa ser medido ou aplaudido.
Em uma cultura obcecada por crescimento, visibilidade e avanço constante, parar parece uma fraqueza a ser superada, não uma inteligência a ser cultivada. Mas a natureza não opera assim. As árvores não perdem as folhas porque desistiram. Elas recuam porque sabem o que estão fazendo: conservando energia, aprofundando raízes, preparando o que vai brotar. Nenhuma árvore pede desculpas pelo inverno.
Chegamos à maturidade depois de décadas dando conta – do trabalho, da família, das expectativas alheias e das nossas próprias. Já plantamos e colhemos. Muita coisa foi construída, entregue, sustentada. E agora, quando o ritmo começa a mudar e o corpo pede outro compasso, é fácil interpretar isso como declínio.
Mas não é. É o trabalho do subsolo, que acontece no escuro, sem aplauso, sem métrica visível. As raízes não aparecem, mas são elas que sustentam tudo. Na maturidade, muito do nosso trabalho mais importante tem essa natureza: o de integrar o que vivemos, perguntar o que ainda faz sentido, perceber o que pode ser liberado. Não é um trabalho pequeno. É, talvez, o maior – e o mais difícil, justamente porque exige ficar com a gente mesma sem a distração de estar sendo úteis a alguém.
E precisamos aprender a confiar no ciclo. A primavera não chega mais cedo porque a pressionamos. Há uma lógica nos ciclos da natureza que não cede à nossa ansiedade – e aí está o convite mais valioso para mulheres da nossa geração.
Não o de cruzar os braços, mas o de parar de apressar o que precisa ser gestado. De permitir que a próxima versão de nós mesmas emerja no tempo dela, não no tempo que a produtividade exige.
Minha amiga não estava em modo de inverno como desculpa, mas como sabedoria – só ainda não sabia chamar assim. O inverno sabe coisas sobre nós que nós mesmas esquecemos: que nem toda estação é feita para florescer, que o silêncio também trabalha, e que descansar não é o oposto de crescer. É parte dele.
Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
