Um banho de cachoeira era o que eu precisava depois daquela semana. Mas o que não precisava era da trilha cheia de lama que levava até ela. Na primeira vez que meu chinelo afundou, quis desistir: mata adentro, o terreno estaria mais molhado; trovejava; não conhecíamos a trilha; poderia haver animais (insetos eram certos); a correnteza seria forte; não posso correr riscos com a imunidade baixa por causa da quimioterapia. Fui elencando motivos para voltar ao ar condicionado da cabana e abrir uma garrafa de vinho.
Nosso anfitrião garantiu que o caminho era tranquilo, mas de que valia o testemunho diante do meu cérebro pessimista? Ele estava funcionando em seu modo padrão, priorizando os cenários negativos para que eu abandonasse a aventura e me mantivesse em segurança. Mas segui, caí duas vezes, deslizei na lama e cheguei tão suja que nem a água gelada poderia me desanimar. E foi delicioso. Na volta, percebi alguns galhos onde poderia ter me segurado, o que tornou o retorno muito mais tranquilo.
Quando fomos jantar com a família que, entre outras atividades, gerencia a pousada, foi servida uma canja. Aquele tipo de comida afetiva que o cérebro imediatamente reconhece como segura. Não há mistérios ou desafios em um caldo de arroz com frango. Me joguei, mas estava tão quente que logo deixou uma bolha no céu da minha boca. Dias depois, meu palato ainda luta para se regenerar.
Foi um passeio de final de semana, mas meu cérebro encarou como qualquer nova experiência que eu apresente a ele. Ao criar na minha mente todas as catástrofes possíveis, ele quer que eu me prepare da melhor maneira e desista de qualquer coisa que possa me colocar em risco, seja uma picada de aranha, uma transição de carreira ou o fim de um relacionamento. Por outro lado, me incentiva a investir no que é familiar e não oferece perigo, como uma canja, um trabalho sem propósito ou um relacionamento moribundo.
É assim que o cérebro trabalha. Ele é previsível, mas a vida não. Quando saímos das elucubrações mentais e nos colocamos em movimento, o que parecia perigoso pode acabar sendo revigorante – e bem menos difícil do que imaginávamos. Já o que parecia seguro pode revelar sofrimentos imprevistos. Por isso, é preciso desconfiar de nossas primeiras análises, que podem estar pendendo para o lado negativo apenas porque estamos com medo.
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Quando já somos maduras, parece que isso piora. Todas as áreas das nossas vidas (ou quase) parecem bem estruturadas, não queremos perder nada do que foi conquistado e nem decepcionar as pessoas que nos admiram. Só que a maturidade chega para lembrar que não há mais tempo a se desperdiçar com escolhas equivocadas. Quaisquer que sejam elas, vamos acabar com a bunda na lama em alguns momentos – em contrapartida, também descobriremos apoios imprevistos capazes de tornar o caminho mais fácil.
Mas se decidimos não ir atrás do que é pressentido como liberdade, o gosto que fica é o do arrependimento pelo que não foi ao menos tentado. E esse nunca mais sairá da sua boca.
Adriana Haas é jornalista, escritora e tradutora da maturidade. Tem dois livros e uma newsletter semanal sobre o assunto, e adora reunir mulheres para conversar sobre ele – porque acredita que, juntas, as maduras são revolucionárias.
