Estou em uma viagem pela Escandinávia que inclui três países e muitos deslocamentos, numa logística em que não poderia haver erros. Fiz todo o planejamento sozinha – ou melhor, com a ajuda da inteligência artificial. Sempre fui muito boa em organizar viagens, mas com ela tudo se tornou mais rápido. Pesquisas que me tomavam horas agora são finalizadas em poucos minutos.
Essa é a grande vantagem oferecida a nós, seres humanos, pela IA: nos devolver um pouco de nosso bem mais precioso, o tempo. Não há matemática mais evidente: tempo é vida; logo, cada minuto é uma gema rara, cuja perda jamais pode ser recuperada. E é precisamente o que podemos fazer com esse tempo que sobra (ou deveria sobrar) que nos diferencia da máquina.
Há duas formas de conhecer o mundo, e elas são bem diferentes: saber e experimentar. A primeira é informacional e se acumula. A segunda é visceral – e se vive.
A IA sabe de tudo.
Sabe a temperatura média de Bergen em junho, os melhores restaurantes de Oslo por faixa de preço, a distância entre dois fiordes e o horário do último trem. Sabe com uma velocidade e uma precisão que eu jamais terei.
Mas a IA não experimenta nada.
Não desfruta de um café da manhã demorado, um pôr do sol no meio de estranhos, da corrida embaixo dos primeiros pingos de uma chuva inesperada. Não conhece o embaraço diante da pergunta de uma criança, nem o cheiro do pescoço de quem ama. Não chora uma tristeza até o fundo, sem atalho, sem prompt que a resolva, para descobrir, do outro lado, que ainda está inteira.
Nada sabe dos perrengues de uma viagem – a mala extraviada, o trem perdido, o hotel barulhento – e do orgulho quando você resolve tudo sozinha, num idioma que não é o seu. Não experimenta parar diante de uma obra de arte com os olhos cheios de lágrimas, nem encarar a própria finitude sentindo, ao mesmo tempo, o peso e a beleza disso.
A IA escaneia o cardápio com perfeição. Nós saboreamos a refeição.
E não é apenas o mundo que podemos experimentar, mas também outras versões de nós mesmas – no meu caso, uma menos apressada do que na juventude, mais contemplativa, menos urbana, mais próxima à natureza. Versões que só aparecem quando insistimos em fazer sobrar o tempo, sem pressa de ocupá-lo.
Isso é o que a maturidade oferece, quando permitimos: a possibilidade de passar do saber ao experimentar. Na primeira metade da vida, somos recompensadas por acumular – diplomas, títulos, competências, relacionamentos, respostas. Construímos currículos e costas que sustentam o mundo. Mas em algum ponto – geralmente depois de uma perda, uma doença, uma ruptura ou simplesmente de um cansaço que não passa com férias – paramos de perguntar "o que eu sei?" e começamos a perguntar "o que eu vivi?".
A IA jamais fará essa pergunta. Ela não tem corpo para sentir o frio de um fiorde de manhã cedo. Não tem história acumulada nesse corpo.
Nós temos.
E agora, quando as máquinas assumem tanto do que antes fazíamos, torna-se urgente proteger o que só nós podemos fazer – viver, com tudo o que isso inclui.
Isso não é dado a nenhuma inteligência artificial. Isso se chama experiência. E é, ainda, o nosso território intocável.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
