Adriana Haas

Amadurecer é parar de silenciar as emoções

Na coluna, Adriana Haas reflete sobre como a meia-idade leva mulheres a reconhecer emoções e deixar de colocar suas necessidades em último lugar

Na meia-idade, reconhecer os próprios sentimentos pode abrir espaço para rever prioridades e relações
Na meia-idade, reconhecer os próprios sentimentos pode abrir espaço para rever prioridades e relações Foto : Magnific / Divulgação / CP

Muitas mulheres de meia-idade com as quais converso reclamam de exaustão. E não é à toa: a maioria delas acumula o trabalho externo com o doméstico e os de cuidado de outras pessoas (em especial, filhos pequenos e pais idosos). Mas há um outro tipo de trabalho, ainda menos visível, realizado pelas mulheres e que demanda muita energia: o emocional.

Ele inclui a disponibilidade constante para ser a pessoa com quem todos podem contar, estar sempre atenta para perceber quando alguém está desconfortável, conseguir antecipar as necessidades alheias e demonstrar um “jeitinho” para conciliar e evitar conflitos – ainda que isso implique esconder os próprios sentimentos. Embora tudo isso costume ser considerado “natural” e atribuído à personalidade, exige esforço e provoca cansaço.

Muitos desses comportamentos são aprendidos cedo. Meninas são incentivadas a ser compreensivas, dóceis e prestativas, a não criar caso. Ao longo da vida, essas expectativas podem se incorporar de tal maneira ao nosso modo de agir que deixamos de percebê-las como comportamentos aprendidos. Nos tornamos tão hábeis em atender os outros que perdemos de vista o que nós mesmas sentimos e desejamos.

É nesse cenário que a ideia do “véu hormonal”, associada à perimenopausa, oferece uma perspectiva interessante. Segundo ela, a oscilação hormonal funcionaria como a retirada de um filtro: aquilo que antes engolíamos em silêncio passa a incomodar. A irritação aumenta, a paciência diminui e certas concessões passam a pesar. Entretanto, ainda que as mudanças hormonais possam contribuir para alterações no humor e na sensibilidade ao estresse, elas não explicam tudo o que acontece. Há um contexto mais amplo, que percorre toda a nossa história.

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E a transição menopausal não é a única mudança que ocorre na meia-idade. Transformações na família, nos relacionamentos, no trabalho e na forma como enxergamos a nós mesmas também podem despertar o desejo de rever a própria vida. Depois de anos cedendo para evitar conflitos, algumas mulheres começam a se perguntar por que continuam colocando as necessidades dos outros em primeiro lugar. Em vez de atribuir toda irritação à menopausa ou se esforçar para voltar a ser a mulher que tolerava tudo, passam a investigar o que esse incômodo está lhes dizendo sobre quem são e o que desejam daqui para a frente.

Ser honesta com as próprias emoções significa reconhecê-las e validá-las: admitir o cansaço e o ressentimento sem nos deixar dominar pela culpa, dando a essas experiências a mesma legitimidade que concedemos às necessidades de quem amamos. Amadurecer também é compreender que não precisamos ser sempre a pessoa que compreende e cede. Podemos continuar sendo generosas e atenciosas sem nos colocar em último lugar. Cuidar de quem amamos e cuidar de nós mesmas são movimentos complementares – e não excludentes.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de onze anos e tem dois livros sobre o tema.