Adriana Haas

A maturidade pede pausas intencionais

Colunista Adriana Haas aborda a necessidade de desacelerar em meio à correria da meia-idade para reconectar-se com os próprios desejos

Criar um “botão de pausa” pode significar se afastar da rotina por alguns dias para reconectar com a natureza, ler, escrever e reorganizar o ritmo
Criar um “botão de pausa” pode significar se afastar da rotina por alguns dias para reconectar com a natureza, ler, escrever e reorganizar o ritmo Foto : Magnific / Divulgação / CP

Só não paguei 20 dólares por um “botão de pausa” porque não havia entrega para o Brasil. Trata-se de um botão tipo campainha, para ser apoiado em superfícies como uma mesa, um pouco menor que a palma de uma mão e que, ao ser pressionado, emite um som parecido com o de sinos tibetanos. A ideia é apertá-lo nos momentos de estresse, para nos lembrarmos de parar, respirar e retomar o prumo.

Mas por que uma mulher que não é dada a compras impulsivas, especialmente de quinquilharias, compraria algo assim? Porque a maturidade pede pausas intencionais – e a meia-idade é a etapa mais difícil para nos encontrarmos com elas.

Entre os 40 e os 65 anos (um pouco mais, um pouco menos), costumamos estar na “hora do rush” da vida. Temos diferentes papéis sociais para desempenhar como profissionais, donas de casa, mães (algumas avós), filhas, irmãs, amigas, esposas, companheiras – e justamente nessa etapa, eles parecem exigir mais de nosso tempo e energia.

A sobrecarga já seria suficiente para nos exasperar, mas há um outro elemento que, embora sentido, pode passar despercebido: quanto mais complexa se torna a nossa vida, mais difícil decidir o que fazer com ela – algo especialmente delicado em uma fase de mudanças intensas como a meia-idade.

Então, diante de cenários tão cheios de variáveis e demandas, acabamos paralisadas, deixando as pequenas decisões para o piloto automático e mantendo as grandes em suspenso. É uma solução que até resolve as coisas no curto prazo, mas cobra um preço mais alto agora: o de ver nosso tempo de vida, que já não nos parece tão abundante, escoar entre os dedos.

Esse é um dos motivos pelos quais as pausas se tornam tão importantes nessa fase. Não apenas para descansar do excesso, mas para interromper a sequência de respostas automáticas que damos à vida. Uma pausa intencional cria um pequeno intervalo entre o que acontece e a maneira como reagimos a isso. E, nesse intervalo, pode surgir o que a correria costuma esconder: a percepção sobre o que realmente queremos.

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Há algumas semanas, eu criei meu próprio “botão de pausa” ao viajar para as montanhas por alguns dias. Foi uma pausa intencional, em que pretendia apenas ficar em contato com a natureza, ler e escrever. Quer saber como me saí? Em vez de uma trilha leve, como havia planejado, fiz cinco, escrevi poucas linhas e voltei cheia de dores nos joelhos pelo esforço excessivo.

Criei meu botão de pausa, mas não consegui apertá-lo. Fui para o interior, mas não consegui abandonar a hora do rush.

Foi uma boa lembrança de que criar uma pausa não significa necessariamente saber pausar. Podemos mudar de cenário, abrir espaço na agenda, ficar longe das obrigações ou apertar um botão e, ainda assim, continuar funcionando no mesmo ritmo por dentro. Até o descanso vira tarefa quando estamos acostumadas a preencher todos os intervalos.

É por isso que as pausas da maturidade precisam ser intencionais: não basta encontrar tempo para parar; é preciso escolher não ocupá-lo. E, principalmente, suportar o que aparece quando finalmente fazemos silêncio.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.