Adriana Haas

Maturidade é saber mudar de lugar

Adriana Haas reflete como a mulher redefine papéis e encontra liberdade ao decidir morar sozinha, transformando suas relações familiares

Na maturidade, estabelecer limites e fazer novas escolhas também pode abrir espaço para redescobrir desejos, prioridades e formas de viver
Na maturidade, estabelecer limites e fazer novas escolhas também pode abrir espaço para redescobrir desejos, prioridades e formas de viver Foto : Magnific / Divulgação / CP

Foi um ninho vazio ao contrário: em vez dos filhos adultos, saiu a mãe. Não havia morado sozinha desde o casamento, 31 anos antes. Vieram os filhos, ficou viúva e se tornou a chefe da família, responsável pelo sustento e suporte de todos. Até que, aos 56, decidiu morar só. Mudou-se para o apartamento de um quarto que havia comprado como investimento. Quando o namorado sugeriu que morassem juntos, a resposta foi mais um “não” – que se tornou, assim, seu grito de liberdade.

É claro que suas decisões geraram suspeita ou desagrado em todos os que esperavam que jamais fugisse aos papéis que havia desempenhado até então. Enfrentou caras viradas e acusações de abandono. Chorava ao ter que lidar com a culpa e o sentimento de que estava sendo egoísta por não pensar nos outros em primeiro lugar – como foi silenciosamente ensinada, por ser mulher, a fazer.

Demorou algum tempo para que sentisse que não havia abandonado ninguém, e sim deixado de estar permanentemente disponível. E há uma diferença importante entre as duas coisas. Para quem se acostumou a ter acesso irrestrito ao tempo, à energia e à capacidade de resolver problemas de outra pessoa, o estabelecimento de um limite pode inicialmente parecer uma retirada de afeto. Nem todo limite é recebido com compreensão. Às vezes, ele precisa primeiro provocar um desconforto para que as relações encontrem uma nova configuração.

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Foi o que aconteceu. As coisas foram entrando nos eixos – não nos mesmos, mas em outros. As mudanças começaram com os filhos, que deixaram de contar com alguém sempre disponível para organizar a rotina, arcar com as despesas e resolver os problemas. O solavanco de sua ausência os desequilibrou, mas também os fez perceber que podiam assumir responsabilidades que, até então, estavam sobre os ombros da mãe. Cresceram, tanto em termos pessoais quanto profissionais, porque já não havia quem estivesse sempre um passo à frente para ampará-los.

Com o tempo, eles puderam enxergar a mulher que sempre existiu por trás da mãe, mas que só se mostrou inteiramente ao estabelecer limites. E foi uma descoberta compartilhada: depois de tantos anos ocupada dando conta de tudo e de todos, ela própria terá que descobrir quem era quando não estava cuidando de alguém.

Agora, está se deliciando em conhecer a mulher que é, seus gostos e preferências, sem precisar negociar com os outros. O apartamento de um quarto cresceu e se transformou no primeiro ninho inteiramente dela. Sua decisão não rompeu os vínculos, mas deixou mais nítidos os lugares de cada um. Ao demarcar suas fronteiras pessoais, ela não se afastou dos filhos, apenas mudou a forma de estar com eles. Na mudança de posição, mexeu no tabuleiro inteiro, fazendo com que cada um encontrasse um novo lugar para ocupar – e todos acabaram ganhando.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.