Quem hoje atravessa a meia-idade provavelmente brincou de dança das cadeiras na infância. Caso alguém não se lembre: várias cadeiras eram dispostas em círculo, mas havia sempre uma a menos do que o número de participantes. Enquanto a música tocava, andávamos em volta das cadeiras. Quando ela parava, todos corriam em busca de um lugar. Quem ficasse de pé estava eliminado.
A dança das cadeiras parece ficar para trás quando nos tornamos adultos – até que a vida nos chama de volta ao jogo. Com uma diferença importante: antes, a preocupação era encontrar a cadeira vazia mais próxima; agora, o desafio é descobrir um novo lugar de onde enxergar histórias que deixaram mais dor e mágoa do que ensinamentos.
Mudar de cadeira não altera o que passamos. Não apaga uma perda, um divórcio, um diagnóstico, uma demissão ou uma escolha da qual nos arrependemos. O que muda é a perspectiva pela qual observamos tudo isso. Há experiências que carregamos como fracassos durante anos e que, vistas por outro ângulo, revelam o início de um caminho que jamais teríamos percorrido se tudo tivesse acontecido como planejávamos. Os fatos permanecem os mesmos, mas seu significado pode mudar.
O mesmo acontece com o presente. Quando estamos mergulhadas em uma situação difícil, é comum acreditar que ela resume toda a nossa vida. A cadeira em que estamos sentadas limita nosso campo de visão. Mas um pequeno deslocamento – uma conversa, um livro, uma viagem, uma terapia ou algum tempo livre – pode ser suficiente para percebermos que existem outros pontos de vista possíveis.
Essa pode ser uma das maiores transformações da maturidade. Na juventude, costumamos imaginar um futuro previsível, desenhado por metas, expectativas e certezas – e o que escapa a elas é considerado erro. Com o passar dos anos, aprendemos que o futuro se parece mais com um conjunto de possibilidades em que muitas são viáveis e outras tantas, imprevisíveis. A experiência nos ensina que não há um único caminho certo ou definitivo para cada pessoa. E para enxergá-los, às vezes basta olhar de outro ângulo.
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Mudar de cadeira de vez em quando tem benefícios comprovados. Estudos em neurociência mostram que, quando conseguimos reinterpretar uma experiência, diminuímos a ativação das áreas cerebrais associadas às respostas automáticas de medo e estresse e ampliamos a atividade das regiões responsáveis por reflexão, planejamento e tomada de decisões. Em outras palavras, mudar o enquadramento de uma situação ajuda o cérebro a responder com mais lucidez e menos reatividade.
E a dança da maturidade pode ser ainda mais interessante. Na infância, quando a música parava, só precisávamos nos preocupar em ocupar uma cadeira. Hoje, a vida interrompe a música com mais frequência. Perdemos coisas valiosas, mudamos de posição, somos obrigadas a recomeçar. Não basta mais encontrar qualquer lugar para sentar: é preciso mudar de cadeira sempre que a paisagem pedir outro olhar. Quanto mais complexa a vida se torna, mais dependemos da perspectiva para compreender o que estamos vivendo.
Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
