Adriana Haas

As janelas não se fecham na maturidade

Adriana Haas reflete sobre experiências que ampliam o olhar, deslocam certezas e mantêm vivo o desejo de abertura em qualquer idade

A maturidade também abre janelas: muda o enquadramento da vida e revela caminhos que antes ainda não tinham nome
A maturidade também abre janelas: muda o enquadramento da vida e revela caminhos que antes ainda não tinham nome Foto : Magnific / Divulgação / CP

Há alguns anos, comecei a fotografar janelas sem entender o motivo. Não era um projeto fotográfico, não havia uma intenção consciente por trás. Mas elas, que nunca haviam chamado minha atenção, viraram vedetes de minhas fotos de viagens. As da Alhambra, em Granada, foram algumas das mais marcantes: janelas de pedra emoldurando jardins cuidadosamente projetados para o deleite de quem os observa. E havia outras, de outras cidades, cada uma com o enquadramento particular de uma pequena amostra da realidade.

No começo, achei que era atração pela luz, pela estética, pela própria viagem. Depois que ela terminava, o celular vez ou outra me devolvia essas imagens naquela seleção automática que ele faz – "sua memória de hoje", "três anos atrás". Eu as via como fragmentos soltos, escolhidos ao acaso. Até que deixaram de me parecer aleatórias.

Janela não é só arquitetura. É o lugar onde o dentro encontra o fora, onde o familiar toca o desconhecido, onde é possível olhar sem ainda ter atravessado e imaginar o que há do outro lado. Fotografar janelas, entendi, era uma forma de registrar o que eu ainda não conseguia nomear: o desejo de abertura, a intuição de que havia outros espaços disponíveis, outras formas de viver que eu não havia experimentado – mas que, de alguma maneira, já sabia que queria.

A maturidade me ensinou que muito do que chamamos de acaso é, na verdade, antecipação. O corpo percebe antes da mente e faz com que a lente encontre antes das palavras. Os gestos que fazemos sem compreender carregam, às vezes, a sabedoria que ainda estamos construindo sobre nós mesmas. As janelas que fotografei não eram decoração nem distração. Eram perguntas que eu ainda não sabia fazer – e às quais, sem perceber, já estava respondendo.

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Uma crença que muitas mulheres maduras carregam é a de que as grandes aventuras, as descobertas que mudam o ângulo com que se vê o mundo, pertencem ao passado. Que as janelas escancaradas da juventude vão, naturalmente, estreitando com os anos, até que reste só uma fresta, suficiente apenas para espiar o que acontece fora. É uma ideia tão bem instalada que muitas vezes se apresenta disfarçada de bom senso e equilíbrio – e aparece justamente quando as mulheres começam a ter, talvez pela primeira vez, tempo e clareza para se perguntar o que realmente querem e quais janelas podem abrir caminho para lá.

As janelas que fotografei não estavam se fechando. Estavam me esperando. E eu, que por tanto tempo achei que registrava apenas luz e geometria, estava na verdade documentando uma certeza que começava a reconhecer: a de que a aventura não termina quando a juventude passa. Ela muda de forma. Perde a pressa, ganha profundidade, aguça o olhar. Deixa de ser a corrida a um objetivo para se tornar a observação do que parece ordinário, mas que nos revela algo sobre quem somos.

As janelas da Alhambra continuam aparecendo no meu celular de tempos em tempos. Hoje eu sei o que elas estavam me dizendo.

Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.