Adriana Haas

O que há de errado quando a vida está certa

Adriana Haas reflete sobre as razões por trás da sensação de que algo não se encaixa, mesmo quando tudo parece irretocável

Na maturidade, o desconforto pode surgir sem ruptura aparente, mas antigas escolhas já não respondem do mesmo modo
Na maturidade, o desconforto pode surgir sem ruptura aparente, mas antigas escolhas já não respondem do mesmo modo Foto : Freepik / Divulgação / CP

“Por que não estou feliz se tenho tudo o que desejei?”. Antes de me fazer essa pergunta, ela já a havia feito a si mesma dezenas de vezes. Sentia-se perdida e, ainda pior, culpada por ter uma vida bem-sucedida, quase irretocável, e não estar à vontade dentro dela. Diante do amor recíproco pelo marido e pelos filhos, o incômodo se tornava mais difícil de admitir: era ingrata por sentir esse desconforto. Afinal, se não havia um problema, qual era o problema?

Estamos acostumadas a prestar atenção na vida apenas quando algo dá errado: uma doença, um luto, uma separação, uma traição, uma mudança profissional indesejada, a dor do ninho vazio. No entanto, com a chegada à maturidade, o desconforto muitas vezes surge de forma menos evidente e, justamente por isso, mais difícil de reconhecer. Não é que tenha havido erro, mas que algo tenha deixado de encaixar.

Por fora, tudo permanece reconhecível: as relações, os compromissos, a rotina, as escolhas que um dia fizeram sentido. Por dentro, porém, um movimento discreto, mas perceptível passa a exigir esforço no que antes era natural. É como se um ajuste fino se perdesse, sem que consigamos identificar exatamente onde e quando isso aconteceu.

Aquilo que foi escolha em um momento pode se tornar limite em outro. O que antes organizava passa a restringir. E, como não há nada “errado”, tentamos corrigir com mais dedicação, mais presença, mais empenho em sustentar o que, até pouco tempo atrás, se sustentava sozinho. Vamos ficando exaustas e ainda mais perdidas ao perceber que o investimento no que parecia tão certo já não oferece o mesmo retorno.

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Reconhecer esse momento não é simples. Fomos ensinadas a valorizar a continuidade, a insistir, a dar conta. A ideia de que algo pode deixar de servir, mesmo tendo funcionado bem, costuma soar como falha, falta de gratidão ou de consistência. Como se toda mudança precisasse de uma justificativa clara ou um problema objetivo que autorizasse a revisão do que foi construído.

Mas nem toda transformação chega assim. Há mudanças que não desorganizam a vida de imediato e nem exigem decisões urgentes. Elas se insinuam, silenciosas e persistentes, como um descompasso entre quem nos tornamos e a vida que continuamos levando. No início, é quase imperceptível: uma sensação de estranhamento aqui, uma impaciência ali, um cansaço que não se explica apenas pelo acúmulo de tarefas. Pequenas fricções que, ao se repetirem, começam a formar um padrão.

É nesse ponto que a pergunta deixa de ser “o que há de errado?” e passa a ser “o que deixou de fazer sentido?”. A diferença pode parecer sutil, mas altera completamente o enquadramento. Em vez de buscar falhas externas, começamos a perceber as mudanças que estão acontecendo dentro de nós. Em vez de tentar consertar, somos convidadas a compreender que o incômodo não chega para apontar o que está errado, mas para revelar o que já mudou. Reconhecer esse movimento é uma das tarefas mais delicadas da maturidade.

Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.