Quando completou 50 anos, perguntei a uma amiga como estava se sentindo. A resposta veio acompanhada de uma comparação que a surpreendeu: dez anos atrás, aos 40, ela sofria muito mais com a ideia de envelhecer do que sofre agora.
Pode parecer contraditório, mas muitas mulheres relatam que, quanto mais velhas ficam, menos se preocupam com o fato de estarem envelhecendo. Não coloco isso como regra (porque elas não existem nesse assunto), mas a entrada na meia-idade, a partir dos 40 anos, costuma ser o período mais desafiador para as mulheres porque acontece em duas direções ao mesmo tempo.
De um lado, começamos a perceber que o mundo nos olha diferente. Pequenos sinais indicam que o lugar que ocupávamos não é mais o mesmo. Comentários sobre aparência tornam-se mais escassos e a atenção social, assim como o desejo masculino, passa a se dirigir às mulheres mais jovens. É como se, aos poucos, fôssemos perdendo a importância.
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De outro, nós também mudamos – no exterior e no interior. Além de o envelhecimento físico se tornar mais visível, o corpo começa a dar outros sinais: as emoções oscilam, a irritabilidade aumenta, o sono já não tem a mesma qualidade e a energia alterna de forma inesperada. Esses podem ser alguns dos efeitos da perimenopausa, a fase de transição hormonal que antecede a menopausa.
A coincidência entre essas duas transformações torna essa fase desorientadora. Ao mesmo tempo em que percebemos mudanças no olhar do mundo, sentimos que já não somos as mesmas de antes. É por isso que tantas mulheres descrevem esse período com uma frase que aparece com frequência nas conversas: “Não me reconheço mais.” À primeira vista, essa sensação costuma ser interpretada como perda, como se uma parte de nós estivesse desaparecendo. Mas há outra maneira de olhar para esse processo.
Parte desse estranhamento existe porque aquela versão anterior de nós não corresponde à pessoa que estamos nos tornando. Durante décadas, a identidade feminina se organizou em torno de papéis definidos: construir uma carreira, encontrar um parceiro, formar uma família, cuidar de filhos, corresponder a determinadas expectativas sociais. Na metade da vida, muitos desses eixos começam a se reorganizar. O corpo entra em um novo ciclo biológico, as prioridades mudam e algumas ambições perdem força enquanto outras começam a surgir.
A sensação de não se reconhecer pode ser, portanto, menos um sinal de perda do que de transformação. Quando as antigas referências deixam de servir completamente, abre-se a possibilidade de construir outras: uma nova relação com o corpo, novos projetos e perguntas sobre quem somos e o que queremos fazer com o tempo que ainda temos pela frente.
É por isso que hoje, aos 50 e já na menopausa, minha amiga se incomoda menos com o fato de estar envelhecendo. Aquela mulher não se reconhecia mais porque não era mais a mesma. O que ela ainda não sabia é que aquela inquietação poderia ser o início de uma etapa de mais autoconfiança e liberdade.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
