Onze anos atrás, quando comecei a pesquisar sobre o envelhecimento feminino, falava muito sobre a invisibilidade – esse sentimento de que, com a chegada da maturidade, subitamente deixamos de ser vistas. De uma hora para a outra, não atraímos mais os olhares de admiração e desejo de que costumávamos ser alvos na juventude. Ainda que, no espelho, consigamos identificar a mesma beleza (acrescida de alguns sinais do tempo), parece que o mundo deixou de percebê-la. E isso nos faz sofrer.
Não é uma dor fútil ou superficial. A aparência funciona como uma espécie de capital social – especialmente para as mulheres, ensinadas a ocupar seu espaço, em grande parte, por meio dela. A lógica que rege essa relação sugere que, ao envelhecer, nosso valor vai escorrendo pelo ralo. Em uma sociedade etarista, a juventude é tratada como atributo da beleza, e o fim de uma implicaria inevitavelmente no fim da outra – e, com isso, na perda de uma moeda de troca importante nas interações sociais.
Nos últimos anos, no entanto, passei a falar menos sobre essa dor por ter conhecido um número cada vez maior de mulheres maduras no auge de sua potência – e por também me reconhecer assim. Cheguei a acreditar que já não sofríamos tanto com essa invisibilidade. Mas me enganei. Embora as mulheres maduras estejam mais confiantes, o mundo não passou a nos observar com mais generosidade. Pesquisas recentes mostram que mulheres acima dos 50 anos continuam relatando a sensação de serem ignoradas em espaços sociais e menos reconhecidas como desejáveis, mesmo quando estão profissional e pessoalmente em fases muito ricas da vida.
Alguns estudos indicam que muitas mulheres começam a perceber mudanças na forma como são vistas socialmente já por volta dos 35 ou 40 anos. Esse período de entrada na maturidade costuma ser particularmente desafiador porque, além de marcar o primeiro contato com essa invisibilidade social, coincide com a perimenopausa – fase em que os primeiros sinais da transição hormonal podem provocar mudanças físicas e emocionais que muitas vezes ainda não sabemos nomear. Sentir que algo está se transformando dentro de nós e, ao mesmo tempo, perceber que o mundo também começa a nos olhar de outra maneira é desorientador.
Muitas mulheres, contudo, começam a notar algo surpreendente à medida que avançam nesse processo. Quando a pressão do olhar externo diminui, pode surgir também um espaço novo, com menos necessidade de corresponder a expectativas estéticas rígidas e, como consequência, menos vigilância sobre cada detalhe do corpo. Pouco a pouco, a beleza deixa de se concentrar apenas na aparência e se expande também para outras dimensões: a presença, a inteligência, a autenticidade, o desprendimento, a história que cada uma carrega.
A maturidade não nos torna invisíveis; ela apenas revela o quanto o olhar da cultura é estreito. E, quando percebemos isso, descobrimos que a beleza não está apenas na juventude, mas principalmente na liberdade.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
