No dia em que completou 43 anos, ela me mandou uma foto tirada no espelho do quarto. Não estava produzida ou maquiada, mas sentada sobre a cama, cabelos soltos, com a roupa que usaria, talvez, para um passeio com a filha adolescente. E estava linda – não apenas na minha opinião, mas na dela própria. Em suas palavras, o que viu foi uma mulher que tem feito um bom trabalho na vida e está bonita assim, sem implicar com suas imperfeições.
Não considero acaso ter sido esse o terceiro relato que escutei, ao longo de poucos dias, de mulheres garantindo estarem satisfeitas consigo agora, quando chegam à maturidade, mais do que na juventude. Há um movimento crescente nessa direção. Mulheres maduras começam a afirmar sua beleza sem precisar parecer jovens – e, sobretudo, passam a reconhecê-la não apenas na aparência, mas no conjunto que inclui o que se vê e o que se viveu.
Há, nesse processo, um componente central: a autoconfiança – não a de quem se sente “adequada” às normas estéticas (se é que isso chega a acontecer), mas a que nasce da experiência acumulada. A mulher que já perdeu, ganhou, recomeçou, errou e acertou pode construir uma relação menos ansiosa com o olhar alheio. Quando a validação externa deixa de ser o único critério, abre-se espaço para um olhar mais generoso sobre si.
Esse é, quero acreditar, um avanço sutil em relação ao etarismo. Durante décadas, a régua estética premiou a ausência de sinais do tempo – quanto menos marcas, maior o valor atribuído. Continua sendo assim, mas algumas mulheres começam a inverter essa lógica: não estão se achando bonitas apesar da idade, mas também por causa de tudo o que ela lhes permitiu experimentar.
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No entanto, a velocidade com que os comportamentos sociais mudam não é acompanhada, no mesmo ritmo, pela nossa subjetividade. Para nos sentirmos bem em nossa pele, precisamos de autorização interna. Autorizar-se a enxergar a própria beleza madura é um gesto íntimo e político ao mesmo tempo. Íntimo, porque acontece no silêncio, diante do espelho que não mente nem aplaude. Político, porque rompe com a narrativa que associa valor feminino à juventude. Quando uma mulher de 45, 50 ou 60 anos reconhece a própria beleza sem pedir desculpas pelo tempo que passou, ela desafia o etarismo que tenta constrangê-la cotidianamente.
O que Ana fez naquela manhã de aniversário não foi apenas tirar uma foto sem filtro: ela celebrou a si mesma e a própria história, sem a obrigação de “corrigir-se” antes de se considerar bonita. Ao atravessar essa barreira, abriu também outras possibilidades. A mulher madura que reconhece sua beleza sob esse olhar amplia seu campo de autonomia e, a partir daí, suas escolhas se orientam menos pelo medo e mais pelo desejo – no trabalho, nos afetos, na forma de viver. Assim, a maturidade deixa de ser encolhimento e passa a ser expansão.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
