Mesmo depois de três anos na corda-bamba, que culminaram em uma traição, eles tentaram resgatar a relação. Porém, boa vontade, esforço e terapia de casal não foram suficientes, e concluíram que era a hora de cada um seguir seu caminho – que, com o passar dos anos, havia se tornado diferente.
Quando jovens, compartilhavam valores semelhantes e os mesmos projetos de vida, alguns dos quais foram conquistados. Mas a maturidade chegou mudando o que cada um considerava prioridade, e essas novas prioridades já não podiam mais ser conciliadas em projetos comuns.
É frequente, entre casais maduros, que essas diferenças passem despercebidas durante os anos em que a vida está organizada em torno de grandes empreendimentos compartilhados, como a criação dos filhos e a construção profissional. Educar, sustentar, acompanhar; crescer na carreira, consolidar posição, garantir estabilidade financeira: tudo isso exige tanta energia que pouco sobra para a atualização do vínculo conjugal.
Nesse ritmo, descompassos podem ocorrer. Às vezes, basta uma discreta mudança de ângulo na trajetória para que os parceiros sigam, sem perceber, por linhas que se afastam gradualmente. Então, quando os filhos crescem ou as metas profissionais são atingidas, e a atenção se volta novamente para o casal, pode haver um estranhamento: quem é essa pessoa ao meu lado? E, talvez mais importante: quem sou eu agora?
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A forma como fomos socializados para entender os papéis do homem e da mulher em uma relação impacta esse cenário. Enquanto aos homens é permitido (e até incentivado) investir em projetos externos e preservar uma identidade para além da família, às mulheres costuma ser atribuída a responsabilidade quase integral pela engrenagem organizacional e afetiva do lar, mesmo quando também estão engajadas no mercado de trabalho. Nesse contexto, elas adiam perguntas fundamentais sobre si mesmas: o que desejo agora? O sucesso que buscava na juventude ainda me satisfaz? Muitas vezes, quando finalmente há tempo e silêncio para escutar essas perguntas, as respostas já não coincidem com as do parceiro.
Isso, no entanto, não significa necessariamente a separação. Ao contrário: pode inaugurar uma fase muito produtiva para o casal. Quando ambos estão dispostos a rever acordos e reconhecer que não são mais as mesmas pessoas de vinte anos atrás, a maturidade pode fortalecer o vínculo. Em vez de um contrato baseado em papéis ultrapassados, constrói-se uma parceria entre dois adultos que se escolhem novamente, agora com mais consciência.
Quando valores e projetos seguem na mesma direção, pode ser apenas uma questão de acertar o passo. No entanto, há situações em que, mesmo com diálogo e esforço, os caminhos se tornam inconciliáveis – e reconhecer isso também é um gesto de maturidade. Permanecer por medo da solidão, da crítica social ou da culpa pode custar caro demais.
Maturidade não é apenas o tempo em que os filhos crescem ou em que a carreira se estabiliza. É também o tempo em que nós crescemos (ou deveríamos crescer). Isso implica “versões atualizadas” de nós e, como consequência, também das nossas relações, que precisam ser reconfiguradas para que não fiquem no passado – e possam persistir no presente e no futuro.
Adriana Haas é jornalista e escritora. É pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
