Há uma cena em Sex and the City 2 que envelheceu melhor do que deveria – porque, infelizmente, segue atual. Samantha Jones escolhe um vestido prateado, tomara que caia, para ir a um evento. Está satisfeita, resolvida, pronta para brilhar. É então que a vendedora deixa escapar que o vestido talvez não seja mais para a idade dela. Dezesseis anos nos separam daquele filme e, de lá para cá, muita coisa mudou no discurso sobre o envelhecimento feminino. Mas, na prática, aquela vendedora segue dentro de cada uma de nós.
A verdade é que não precisamos que ninguém nos faça esse tipo de alerta disfarçado de “bom senso”: aprendemos a repeti-lo sozinhas, diante do espelho, do provador, da foto que não saiu como esperávamos. A cultura terceirizou para dentro de nós a tarefa de nos vigiar. E o roteiro que ela nos entrega é que, a partir de certa idade, espera-se que a mulher comece a recuar.
Esse recuo é exigido em vários territórios. Do corpo, pede-se que não insista em ser visto. Do desejo, avisa-se que “isso já passou”. No trabalho, a mulher madura é convidada a dar vez às mais jovens. Da voz, cobra-se que não seja “demais”. Nenhuma dessas exigências, disfarçadas de bom senso, se apresenta como o que é: uma ordem para que ela ocupe menos espaço no mundo.
É contra esse roteiro que a alegria de uma mulher madura se torna um gesto de resistência. A alegria que insiste em existir: a que compra o vestido mesmo depois do comentário, a que continua desejando, criando, aparecendo. Rir alto onde se esperava o silêncio, desejar onde se esperava a resignação, ousar onde se esperava o recolhimento. Recusar-se a desaparecer.
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Essa recusa tem um preço. A mulher que não recua é acusada de não se aceitar, não assumir a idade, é até chamada de ridícula. Mas convém inverter a leitura: quando a presença de uma mulher madura incomoda, o problema raramente é ela. O desconforto vem do roteiro desobedecido à vista de todos e da frustração de quem contava em vê-lo cumprido. O incômodo alheio, nesses casos, é um elogio: prova de que se saiu do lugar reservado.
Mas esse não é o único motivo pelo qual a alegria de uma mulher madura incomoda. Existe também um interesse econômico em mantê-la entristecida. Diante de modelos inatingíveis de perfeição, somos condicionadas a sempre procurar, em nós, o que é inadequado – e, por um preço, promete ser resolvido. Primeiro se cava o buraco: você envelheceu, sumiu, já não serve para isto ou aquilo. Depois se vende, caro, aquilo que promete tapá-lo. É um buraco planejado para nunca fechar.
A alegria de que falo aqui emperra essa engrenagem. Uma mulher que se nega a encolher é uma péssima consumidora de aflição: não compra de volta o que não aceita ter perdido. Diante do espelho (e da vida), em vez de ser a fiscal de si mesma, questiona o lugar de insuficiência que lhe tentam atribuir – e encontra alegria para rir até de sua própria “vendedora interna”, que continua ali, mas já não dá a última palavra. Questões de desejo e hormônios na maturidade também são tema de profunda reflexão.
Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
