Será que a maturidade é um terreno em que as novas experiências se tornam naturalmente escassas ou somos nós que paramos de ir ao encontro das oportunidades? Foi com essa pergunta que encerramos a última edição do podcast Covil das Lobas – que, embora sem uma resposta definitiva, levantou algumas hipóteses sobre a questão.
A primeira tem a ver com a narrativa que construímos ao longo dos anos sobre quem somos. Ela costuma levar a sentenças como “eu não sou aventureira”, “nunca gostei de frio”, “esse tipo de coisa não é pra mim”, “não tenho mais idade para isso”. Frases assim soam como verdades definitivas, mas muitas vezes descrevem apenas quem fomos durante muito tempo – não quem ainda podemos ser. Quanto mais vivemos, mais essa narrativa se solidifica como parte de uma identidade que vamos tomando como imutável, mesmo quando nos limita.
Há também o peso das nossas conquistas. Quando superamos a meia-idade, já temos contabilizado muito tempo e esforço investidos na construção de carreiras, relações, competências, reputação, lugar social – conquistas importantes, que se tornaram parte de nossa base. Essa estrutura, no entanto, pode ser ao mesmo tempo sólida o suficiente para nos sustentar e rígida o bastante para nos engessar. Experimentar algo novo soa como colocar em risco toda essa solidez. É natural, então, que surja o medo de desmontar aquilo que se levou décadas para construir e que, de certa forma, nos dá a sensação de segurança diante de um mundo cheio de incertezas.
E é aí que entra também o desconforto de ser iniciante outra vez. Depois de anos sendo competentes – no trabalho, na criação dos filhos, na organização e administração da vida –, voltar a não saber pode soar desagradável e até assustador. Não entender um aplicativo, tropeçar num idioma, fazer uma pergunta que parece óbvia para os outros: tudo isso ativa um constrangimento que fomos deixando de tolerar. No entanto, essa sensação de ser novata em alguma coisa coexiste com a descoberta – tanto que é até difícil separar uma da outra.
Apesar de tudo isso, a maturidade pode ser a fase mais fértil para experimentações de nós mesmas. Não porque tenhamos mais energia ou tempo livre (raramente é o caso), mas porque temos menos necessidade de aprovação, mais clareza sobre o que realmente desejamos e mais capacidade de estar presentes no que fazemos, sem tanta ansiedade para controlar o futuro. Essas vantagens, contudo, não são automáticas: precisam ser elaboradas e incorporadas para que sejam desfrutadas.
O verdadeiro limitador da maturidade não é a idade, mas a rigidez. Quando enrijecemos, deixamos de experimentar não por falta de oportunidades, mas porque passamos a defender versões antigas de nós mesmas, conquistas que já cumpriram seu papel e certezas que já não nos servem tão bem. A maturidade nos oferece a possibilidade de desenvolver discernimento: não para definir quem somos de uma vez por todas, mas para reconhecer, de tempos em tempos, quem podemos nos tornar.
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Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
