Reganho de peso após emagrecimento: entenda por que acontece

Adaptações hormonais e metabólicas fazem o corpo aumentar a fome e reduzir o gasto de energia depois da perda de peso

Aproximadamente três quilos de peso perdido podem representar cerca de dois quilos de gordura e um quilo de massa muscular, proporção que pode aumentar quando a redução de peso é muito expressiva
Aproximadamente três quilos de peso perdido podem representar cerca de dois quilos de gordura e um quilo de massa muscular, proporção que pode aumentar quando a redução de peso é muito expressiva Foto : Magnific / Divulgação / CP

Recuperar parte do peso perdido após um processo de emagrecimento é uma queixa comum entre pessoas com sobrepeso ou obesidade. Embora muitas vezes o reganho seja associado à falta de disciplina, especialista alerta que o fenômeno envolve mecanismos biológicos complexos, que vão muito além da força de vontade.

De acordo com a nutricionista Adriana Stavro, mestre pelo Centro Universitário São Camilo, especialista em Doenças Crônicas não Transmissíveis pelo Hospital Israelita Albert Einstein e com formação em Medicina do Estilo de Vida pela Harvard Medical School, o organismo tende a resistir à perda de peso e pode tentar retornar ao peso anterior por meio de adaptações hormonais, metabólicas e neurais.

A obesidade é considerada uma condição crônica e recidivante, associada ao aumento do risco de doenças e mortalidade precoce. Programas de emagrecimento baseados em alimentação equilibrada, redução calórica orientada e prática de atividade física seguem como pilares importantes do tratamento. No entanto, a manutenção do peso perdido costuma ser uma das etapas mais desafiadoras.

Segundo Adriana, isso ocorre porque o corpo possui um sistema regulador de fome e saciedade que se ajusta ao maior peso previamente alcançado. Após a perda de peso, esse sistema pode passar a estimular maior ingestão calórica e menor gasto energético, favorecendo a recuperação dos quilos eliminados.

Corpo ativa mecanismos de defesa após a perda de peso

Durante o emagrecimento, especialmente quando há perda rápida ou dietas muito restritivas, o organismo interpreta a redução de peso como uma ameaça à sua reserva de energia. A partir disso, passa a acionar mecanismos para economizar calorias e aumentar o apetite.

Um dos hormônios envolvidos nesse processo é a leptina, produzida pelas células de gordura. Ela participa da regulação da saciedade e do gasto energético. Quando há redução da massa gorda, os níveis de leptina diminuem. Com isso, a sensação de saciedade pode ficar menor e a fome, mais intensa.

Na obesidade, além disso, pode haver resistência aos receptores de leptina. Isso significa que, mesmo quando o hormônio está presente, o organismo não responde de forma adequada aos seus sinais. Essa resistência pode persistir mesmo após o emagrecimento, dificultando a manutenção do peso perdido.

Outro hormônio importante é a grelina, conhecida como hormônio da fome. Após a perda de peso, seus níveis podem aumentar de forma sustentada, estimulando regiões do cérebro ligadas ao apetite. Esse processo pode elevar a vontade de comer, especialmente alimentos mais calóricos.

Dietas muito restritivas podem aumentar a fome, reduzir o gasto energético e dificultar a manutenção do peso | Foto: Magnific / Divulgação / CP

Metabolismo passa a gastar menos energia

Além do aumento da fome, o corpo também tende a reduzir o gasto energético. Esse fenômeno é conhecido como adaptação metabólica. Na prática, o organismo passa a funcionar de maneira mais econômica, gastando menos energia para realizar as mesmas atividades.

A redução da triiodotironina, o T3, hormônio tireoidiano ativo, também pode contribuir para esse processo. Com menor gasto energético basal, a perda de peso pode estagnar e a manutenção dos resultados se tornar mais difícil.

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A insulina, hormônio responsável pelo metabolismo dos macronutrientes, também participa dessa regulação. Após o emagrecimento, ela pode atuar de forma mais eficiente no armazenamento energético, favorecendo a reposição dos estoques de gordura.

Outros hormônios ligados ao controle do apetite e da saciedade também entram nessa equação. O GLP-1, por exemplo, participa da regulação da fome e do gasto energético. Quando há redução de sua ação, pode ocorrer aumento da ingestão alimentar. O peptídeo YY, liberado pelo intestino em resposta à alimentação, também ajuda a promover saciedade, mas seus níveis podem diminuir com a perda de peso.

Essa queda reduz a sensação de plenitude e favorece a ação de vias que estimulam o apetite, como as relacionadas ao neuropeptídeo Y, substância que aumenta durante a restrição calórica e contribui para maior ingestão alimentar, menor gasto energético e resistência à perda de peso.

Perda de massa magra também interfere

Outro fator que pode favorecer o reganho é a perda de massa magra durante o emagrecimento. Quando a redução de peso não é acompanhada por estratégias para preservar a musculatura, como consumo adequado de proteínas e prática de exercícios, especialmente treinamento de força, parte do peso perdido pode vir dos músculos.

A massa muscular tem papel importante no gasto energético basal. Quanto menor a quantidade de massa magra, menor tende a ser o gasto calórico do organismo em repouso. Por isso, preservar músculos durante o processo de emagrecimento é essencial para melhorar as chances de manutenção dos resultados.

Dietas muito restritivas podem piorar o efeito rebote

De acordo com Adriana Stavro, o reganho de peso não deve ser interpretado como falha individual, falta de comprometimento ou ausência de força de vontade. Trata-se de uma resposta biológica complexa, resultado de alterações hormonais, metabólicas e neurais que favorecem a recuperação do peso perdido.

Por esse motivo, dietas extremamente restritivas e estratégias que prometem emagrecimento rápido tendem a ser pouco sustentáveis. Embora possam gerar perda de peso no curto prazo, elas intensificam os mecanismos compensatórios do organismo, aumentando a fome, reduzindo o metabolismo e dificultando a continuidade do tratamento.

O tratamento da obesidade deve ser compreendido como um cuidado contínuo. O objetivo não deve ser apenas emagrecer, mas preservar massa muscular, reduzir os impactos da adaptação metabólica e desenvolver hábitos alimentares e de atividade física que possam ser mantidos ao longo da vida. “Em muitos casos, a associação entre acompanhamento nutricional, intervenção comportamental, atividade física e tratamento farmacológico pode ser necessária para favorecer a manutenção dos resultados e reduzir o risco de recidiva”, explica.