Com um pé no galpão e a cabeça na galáxia

Grupo Tambo do Bando se reuniu e realizou um espetáculo inesquecível no recém-inaugurado Teatro Bancários

Grupo era, de um lado ovacionado pela sua ousadia, e, por outro, questionado por alterar, modificar a forma de fazer a arte dita regionalista do Rio Grande do Sul
Grupo era, de um lado ovacionado pela sua ousadia, e, por outro, questionado por alterar, modificar a forma de fazer a arte dita regionalista do Rio Grande do Sul Foto : Cláudio Fachel

Lembro de uma tarde de primavera de 1999, quando junto do colega Luiz Sérgio Metz, o Jaca, esperávamos abrir o antigo Bar do Beto (na esquina da Venâncio com Vieira de Castro). Estávamos eufóricos após sair de uma aula sobre filósofos gregos com o professor Donaldo Schüller no curso de Mestrado em Letras na UFRGS. Éramos bolsistas da Capes e nossas tardes e noites se resumiam a aulas de Mestrado e discussões acaloradas sobre Platão, Heráclito, Sócrates e outros pensadores da Antiguidade Clássica. Éramos dois jovens adultos que haviam saído do Interior e que viviam na Capital.

Já tínhamos passado pela Santa Maria da Boca do Monte, já éramos jornalistas, mas como outros, tínhamos fome e sede de novos conhecimentos. Tínhamos um pé no galpão e a cabeça andava mesmo pela galáxia, por tantos mundos e eras. Vivíamos num vagão onde havia um louco que era apenas uma criança que chorava e pensávamos que os ciganos iriam para o céu. Estávamos sempre compondo uma milonga nova para cantar depois das areias do fim das areias e nossas bicicletas, em ciclos e séculos, voavam sobre Porto Alegre. Víamos os pelotões avançarem sobre nossos irmãos, mas o que pintava de novo na tela do povo éramos nós. De novo.

No último dia 25 de setembro o grupo Tambo do Bando se reuniu outra vez (na verdade nunca se separou) e realizou um espetáculo inesquecível no recém-inaugurado Teatro Bancários. Foi emocionante ver aqueles cinco “guris” hoje de óculos e cabelos brancos, tocando e cantando como em 1986, há 40 anos, defendendo “O bombo da noite”, no Musicanto de Santa Rosa. A alegria e a irreverência da gurizada do Tambo conseguiu mostrar a magia e fazer estar presente, como vivo estivesse, o letrista e mago Sérgio Metz. De fato, ele esteve ali, sempre estará entre nós, porque Jaca estará nas canções e nos nossos abraços, nas nossas lágrimas e até em nosso olhar, feito de memória e esquecimento. Somos campo e cidade, somos guitarra e bombo-legüero, terra e asfalto.

Foi muito bem escolhida para o biz a música “O bombo da noite”, a canção que, de certa forma, deu origem a tudo. Às premiações, às controvérsias, às polêmicas. Recordo que ouvi muito gaúcho reclamando dos integrantes da banda que usavam brincos. “E até ganham festival”, lamentavam outros, às vezes colegas de música. O grupo era, de um lado ovacionado pela sua ousadia, e, por outro, questionado por alterar, modificar a forma de fazer a arte dita regionalista do Rio Grande do Sul.

Ora, não compreendiam, naquelas décadas, que o Tambo eram os ingênuos malditos, eram os camponeses, os filhos dos corredores, os párias esquecidos, eram os que haviam chegado para quebrar paradigmas, inverter cavalos contra cavaleiros. O Tambo sempre foi um guri nascido nas áreas rurais, vivendo na Capital, cantando U2 e Gildo de Freitas, junto e misturado, inquieto, sempre bebendo horizontes.

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