Todos os doces que a vida levou embora

Agora estou aqui, sentindo a boca ressecada, provando amargos que me chegam sempre fora de hora

Foram essas maravilhosas senhoras as culpadas por me tornar um viciado em doces
Foram essas maravilhosas senhoras as culpadas por me tornar um viciado em doces Foto : Leonid Streliaev / Divulgação / CP

Eram dias e noites amargos. Labuta da manhã à noite, sem domingos ou feriados. Tirar leite, lavoura, atender no bolicho, limpar a casa, lavar roupa no tanque, fazer comida, e, às vezes, um joguinho de bola ao anoitecer. Rudeza, pedras, muros, silêncios, distanciamentos, mas existiam momentos doces e amigos, só que eram de um outro jeito, diferentes dos tempos de agora. E tinham doces mesmo, feitos em tachos de cobre, quitutes que saíam de mãos zelosas, como as da dona Fortunata, da Vila de São João do Barro Preto. Na época, era um amontoado de casas pobres depois do cruzamento dos trilhos, ao lado da pequena estação ferroviária.

Quando ia levar o rancho, ela me esperava sempre com um doce diferente. Pudins, marmeladas, figadas, peradas, goiabadas, ambrosias, pera, melancia, laranja, caqui, abacate, abacaxi. De tudo. Eu dizia, “não precisa, dona Fortuna”, e ela replicava, “precisa sim, trabalhar é bom, mas comer um doce é melhor ainda”. E ria. Eu ria também, no início tímido, depois gargalhava, como ela. Alguns minutos mais tarde, subia na charrete e voltava para casa, conversando com o Tostado, meu companheiro daquelas tardes imemoriais da Vila Rica. Um dia descobri que ele também gostava de doces, principalmente, os caramelados.

Sem falar da dona Eni, esposa de um dos Moreira, família amiga de meu pai. Era uma especialista em rapadura de leite e quando ia levar o rancho precisava levar uns dois ou três litros de leite gordo, de vaca Jersey. Dizia que as diferenças moravam nos detalhes. Depois de provar suas rapaduras, ela fazia uma trouxa de um pano branco, bordado, e me dava. Depois mandava eu colocar o que pudesse nas “algibeiras”, e eu voltava assobiando, com os bolsos cheios de doce e a alma leve, sorrindo, e, por vezes, declamando um poema de Jayme Caetano Braun, ou cantando trechos de Teixeirinha, Gildo de Freitas e Pedro Raymundo.

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Foram essas maravilhosas senhoras as culpadas por me tornar um viciado em doces. Também pudera, comia todos os tijolinhos do armazém da dona Mirica. Nunca pega dinheiro ou alguma coisa para comer sem pedir à mãe. Afora os tijolinhos. Mas um dia, ao levar um rancho no Cerrito, decidi que ia comer leite condensado. Abri a lata com dificuldade numa cerca de arame farpado. E fui golpeando. Ali pela metade da latinha não aguentava mais. Mas empurrei tudo, goela abaixo. No retorno, vim estrebuchando, vomitando e fiquei anos sem poder sentir o cheiro de Leite Moça.

Foram anos amargos, duros e difíceis. Quem mora no campo e é pobre não tem férias. É um tirão só. Por isso, nem gostava das férias, período em que trabalhava mais. Aí me perguntam: Guardaste mágoa? Digo, nada. Até agradeço por essa educação, pois me fez aprender o que importa, a ter valores, não roubar, não mentir, ser autêntico, mesmo que isso nos faça sofrer. Ao me cuidar dos vômitos, disse à Mirica. “Mãe, a senhora me perdoe, comi uma lata de Leite Moça. Ela disse. “Nunca mais faça isso, me peça, que eu abro, tu come o que quiser e eu guardo o resto.”

Agora estou aqui, sentindo a boca ressecada, provando amargos que me chegam sempre fora de hora. E sinto saudade do tempo em que vivia com tanta pouca coisa, junto dos bichos e da natureza, do pai, da mãe, do irmão e dos outros. Confesso, sinto falta dos doces que a vida, um a um, foi me roubando da palma de minhas mãos.